1. "Segundo S. Mateus" é uma maneira de conferir imprecisão à questão da autoria. A Igreja usa, aliás, esta mesma fórmula para os demais Evangelhos.
Quem é o autor do Evangelho que conhecemos como Evangelho de Mateus? Não sabemos. Como os demais, este Evangelho não está assinado. Aliás, nem sequer temos o original, mas apenas cópias. Atribui-lo sem outros elementos de referência ao Apóstolo Mateus depara desde logo com a dificuldade dos termos em que é narrado o chamamento de Mt 9,9, pois que seria natural que o chamado se referisse a si mesmo na 1ª pessoa.
2. É todavia pacífico que o autor de Mt é um judeu e não parece fundadamente questionável que tenha escrito na Palestina. O conflito com o judaísmo que perpassa todo o Evangelho é o conflito doméstico, interno, entre o Cristianismo nascente na Palestina e o fariseismo rabínico emergente da escola de Jamnia. Certo que o cristianismo fruto da missão pelas terras do império também travará os seus combates com o judaísmo da diáspora. Mas o conflito presente e narrado em Mt é fundamentalmente aquele e não este.
3. A data da composição deste Evangelho situam-na os autores na década de 70-80. Isto, entre outras razões, porque o conteúdo dele supõe a destruição do Templo e de Jerusalém na sequência da primeira guerra romano-judaica (66-70). Argumento também usado neste capítulo é o de que Mt depende de Mc, que o precede, e que a composição deste terá ocorrido na década anterior, supondo já ao menos alguma da devastação produzida por aquela guerra.
Mas se é hoje dominante a teoria da precedência de Mc relativamente a Mt, não tem deixado de haver ao longo do tempo vozes discordantes. S. Agostinho, nomeadamente, defendeu que Mt precede Mc e que este é um resumo daquele.
4. Mt recolhe quase todo o material de Mc e contém também muito material da hipotética fonte Quelle. Contém ainda algum material próprio, isto é, não recolhido daquelas duas fontes. É esta a doutrina dominante na actualidade, ainda que também aqui faleça a unanimidade.
É, por isso mesmo, significativamente mais extenso do que Mc (limito a comparação a Mc pelo facto de ainda não ter sido especificamente tratado o Evangelho de Lucas). Mt tem 28 capítulos, contra apenas 16 de Mc.
5. Mas Mt não é só importante pelo conjunto do material que contém. É ainda a própria composição, isto é, a disposição desse diverso material que faz de Mt um Evangelho muito apreciado e, por isso, desde muito cedo foi olhado pela Igreja com particular apreço. É um Evangelho muito arrumado, sistematizado e, portanto, muito adequado ao uso catequético.
Neste particular há a salientar uma alternância entre discurso e narrativa que contribui para a sua reconhecida qualidade literária.
Cinco grandes discursos: o discurso da montanha (5,1 - 7,29) faz deste Evangelho um monumento ético-moral; depois o discurso missionário (9,35 - 10,42); segue-se o discurso sobre o Reino apresentado pelo recurso a parábolas (13,3 - 52); o discurso eclesial supondo uma comunidade que se quer Igreja, vem depois (18,3 - 35); o discurso escatológico, consumação da ruptura com o judaísmo e o desenhar de um novo quadro escatológico (22,1 - 25,46).
São cinco grandes discursos para fundar a nova Aliança. Cinco discursos assim como os cinco livros da Torah. Jesus visto como um novo Moisés.
6. Mt pode ser entendido, também, como o Evangelho do comentário explícito em forma de glosa. A cada momento, com frequência não vista em qualquer dos demais Evangelhos, Mt explica que o que vai sucedendo é para que se cumpra o que antes, no Antigo Testamento se dissera ("Tudo isto aconteceu para que se cumprisse", "assim foi dito pelo profeta"...; cf., só no capítulo 2, os versículos 5, 15, 17, 23), num constante jogo de analepses. Mas também uma acentuada proléptica, um repercutir o presente no futuro. O que Jesus vai dizendo, o que vai propondo, aponta para um tempo que é o da escatologia, melhor dito, para o fim do tempo, onde "haverá choro e ranger de dentes".
7. Em Mt Jesus é mais judeu do que em qualquer dos outros Evangelhos, no sentido de que aí se sublinha que em Jesus se cumpre a promessa messiânica. Jesus é explícita e circunstanciadamente o Messias que Israel esperava. E a construção de Jesus, como Messias, e Filho de Deus (16,16 e 27,54), não se faz aqui, como se não fizera em Mc, por auto-revelação. Jesus vai sendo construído discursiva e narrativamente ao longo do dispositivo literário do Evangelho.
E Mt usa, para tal, figuras características da retórica semita (a inclusão, o paralelismo, a repetição) e uma linguagem exclusiva ou predominantemente sua (exemplos: as palavras justo, justiça, perfeito, hipócrita, atinentes ao discurso ético; as palavras fogo, parusia, recompensa, juízo do âmbito do discurso escatológico).
8. Termino, brevitatis causa, com uma das marcas do Evangelho de Mt: a eclesialidade. Mt é o único que usa a palavra Igreja (16,18 e 18,17). E é, também, como se alcança dos versículos finais do Evangelho (28,18-20) o culminar da «intenção que a Igreja de Mateus descobre em Jesus: a fé no baptismo, na Santíssima Trindade e na presença do Ressuscitado no meio da Igreja» (P. Carreira das Neves, Evangelhos Sinópticos, 2ª edição, Universidade Católica Portuguesa, 2004, pags. 363-364). No mandado aos Apóstolos para que façam discípulos de todos os povos está, também, a vocação da Igreja à universalidade.
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