1. Quem foi S. Lucas a quem se atribui a autoria daquele a que se convencionou chamar o terceiro Evangelho?
Em rigor, não sabemos.
Mas, com alguma plausibilidade não isenta de reticências, poderá ser aquele companheiro de Paulo referido em Cl 4,14 como Lucas, o caríssimo médico. Que o autor do terceiro Evangelho foi companheiro de Paulo em algumas das suas viagens de missionação colhe-se, parece, de vários passos do Livro dos Actos em que o autor usa a 1ª pessoa do plural assim se incluindo entre aqueles de que fala, particularmente de Paulo (cf. Act 16,10-17). Todavia a questão da identificação não fica, nem assim, resolvida, «pelo facto estranho de Lucas nunca falar nas cartas de Paulo» (cf. P. Carreira das Neves, Evangelhos Sinópticos, Universidade Católica Editora, Lisboa, 2004, pag. 315).
2. Mas, permanecendo a dúvida sobre a identidade do autor podemos, ao menos, concluir sobre se era judeu ou pagão? Também sobre esta questão não há unanimidade mas a opinião mais comum é a de que seria de origem pagã. O que parece não sofrer contestação é que dominava com perícia e arte a língua grega (a Bíblia de Jerusalém, na introdução ao Evangelho de Lucas, refere-se-lhe como «escritor de grande talento e alma delicada»), facto que está longe de poder demonstrar a sua origem pagã pois que, certamente, muitos judeus, na Palestina e na diáspora, dominariam facilmente o grego.
3. A data da composição deste Evangelho também não é segura. O facto de, nos Actos, o autor se não referir à morte de Paulo, que segundo a opinião comum terá ocorrido em 66, poderá apontar para uma data anterior. Todavia, certos passos do Evangelho dão sinais de que teria já passado, ou ao menos estaria em curso, a primeira guerra dos judeus contra Roma (66-70) (ver, nomeadamente, Lc 19,41-44 e 21,20-24). Assim, a opinião mais comum é a que coloca a composição do terceiro Evangelho depois da destruição de Jerusalém, isto é, na década de 70-80.
4. Diferentemente dos outros dois Evangelhos que estudámos este começa por uma dedicatória, com destinatário e com justificação. Quanto ao destinatário, é Teófilo (amigo de Deus). Pessoa concreta, singular, como parece decorrer do sentido meramente literal ou, ao invés, uma referência colectiva, a cada leitor implícito, aquele que, porque amigo de Deus, estivesse interessado em conhecer a Boa Nova? Na ausência de elementos seguros, precisos, sobre a identificação do nomeado Teófilo qualquer das interpretações tem razoabilidade.
A justificação para a dedicatória, essa aponta para informações importantíssimas pois que Lucas se propõe narrar factos que já se haviam consumado, empreendimento a que outros já se tinham lançado. E pretende narrá-los seguindo dois elementos de rigor: atendendo à forma como os transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e se tornaram seguidores de Jesus; tudo investigando cuidadosamente desde a origem (Lc 1,1-4).
Ainda diferentemente dos de Mt e Mc o projecto de Lc é duplo como se alcança de Lc 1,1-4 e Act 1,1: no Evangelho, «primeiro livro», os ensinamentos de Jesus; nos Actos, as acções de missionação dos Apóstolos, particularmente de Pedro e Paulo mas sobretudo deste.
5. É, dos Evangelhos que estudámos, o mais longo: muito maior do que Mc é ligeiramente mais extenso do que Mt. Recolhe, como Mt, muito de Mc e da fonte “Q”. Mas é completado com material muito significativo próprio de Lucas. O material próprio de Lucas é mais extenso do que o material próprio de Mt e, quanto aos «ditos do Senhor» (hipotética fonte “Q”), Mateus e Lucas não se terão servido do mesmo texto pois que, usando esse específico material, contêm substanciais diferenças.
6. Quanto à estrutura é patente a semelhança com o encadeamento geral presente em Mc e Mt: uma pregação inicial pela Galileia, depois a aproximação a Jerusalém e, por fim, os sucessores nesta cidade.
Contudo, este encadeamento geral esconde estruturas mais específicas particulares de cada Evangelista. E, no que concerne a Lucas, optou-se nas aulas pela seguinte que apenas deixo enunciada e que destaca sete secções: 1,1-4 – prólogo; 1,5-4,13 – infância e preparação do ministério; 4,14-9,50 – ministério na Galileia; 9,51-19,27 – missão dos discípulos, curas, ensinamentos vários, discursos, parábolas… tudo num percurso de aproximação a Jerusalém; 19,28-21,38 – ministério em Jerusalém; 22,1-23,56 – prisão, paixão, morte e sepultamente; 24,1-53 – ressurreição, aparições e ascensão do Senhor.
7. Deixando de parte esta questão da estrutura – aliás importantíssima – pois que é na disposição e estruturação do material disponível que os evangelistas, todos eles, se revelam como verdadeiros autores, com narrativas e teologias próprias, darei alguma atenção a uma divisão mais evidente em Lc que é a que separa o chamado Evangelho da Infância do Evangelho propriamente dito. Isto para referir duas enormes inclusões que abarcam praticamente todo o Evangelho de Lucas.
A primeira tem que ver com o Templo: logo de início, Zacarias a quem coube «segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para queimar o incenso» (1,9) e, no fim (24,53), «estavam (os discípulos) continuamente no Templo, a bendizer Deus». A segunda, essa, tem que ver com os títulos de Jesus e compreende-se entre a anunciação (1,26-38) e o julgamento de Jesus no Sinédrio (22,66-71).
Ora, aquele enquadramento de todo o Evangelho na referência ao Templo, ver-se-á mais abaixo, surge de alguma forma desvalorizada: a construção de Jesus no Evangelho de Lucas não se faz na relação com o Templo mas, ao invés, com a casa/mesa. Por sua vez, aquela segunda inclusão acentua o carácter proléptico do Evangelho da Infância relativamente ao Evangelho propriamente dito. Com efeito, nas palavras do anjo e de Maria logo Jesus é apresentado como o Filho do Altíssimo; o que cumprirá a promessa messiânica de 2 Sm 7, pois que Deus lhe dará o trono de David e reinará eternamente e será chamado Filho de Deus. Também os do tribunal judaico perguntam a Jesus se Ele é o Messias, o Filho de Deus, a que Jesus responde: «Vós o dizeis; Eu sou». Ali, na anunciação, o reconhecimento por Maria, do filho que iria ter como Messias e Filho de Deus, a aceitação da maternidade do Filho do Altíssimo: «faça-se em mim segundo a tua palavra». Aqui, no Sinédrio, a rejeição que, sendo primeiro dos juízes, será depois de praticamente todo um povo. Ali, aceitação que conduz à vida. Aqui, recusa que encaminha para a morte.
8. Os Evangelhos sinópticos não são formas de auto-revelação de Jesus. São, isso sim, processos de construção de Jesus, isto é, textos de revelação progressiva, continuada de Jesus como o Messias e Filho de Deus pelo que vai dizendo, ensinando, fazendo e, também, pelo que livre e conscientemente suporta: a morte na cruz.
Ora, a figura de Jesus em Lucas vai sendo construída numa marcada relação com a casa e com a mesa. A casa está permanentemente presente em Lucas desde que Jesus, ainda no ventre de Maria, entra em casa de Isabel. Não obstante aquela inclusão acima referida, balizada pelo Templo, não é aqui, no espaço do sagrado, do simbólico, do extraordinário que se constrói a figura de Jesus em Lucas. É-o, ao invés, na casa, lugar do profano, do quotidiano, do abrigo humano. E, em estreitíssima relação com a casa, é à mesa que Jesus vai sendo revelado, onde convive, é certo, com impuros e fariseus, mas em que se demarca destes e se coloca ao lado daqueles, os marginalizados, os pobres, os humildes.
Quatro refeições importantes: em casa de Levi (5,29-…); em casa do fariseu Simão (7,36-…); em casa de um fariseu (11,37-…); ainda em casa de um fariseu (14,1-…). Uma constante: as refeições acabam em conflito. Sempre a discussão sobre o desrespeito pelas obras da Lei (pureza, respeito pelo sábado…) de que os fariseus acusam Jesus e os que o acompanham, e a relativização que Jesus faz de tais obras no rigorismo e formalismo com que os fariseus as praticavam e impunham.
A mesa, como um lugar de revelação de Jesus. E Lucas, muito provavelmente, a recorrer à figura literária grega do simpósio para a sua construção da figura de Jesus. Nada de estranhar pois que vimos, quando estudámos Mc, que o género literário evangelho, sem que deixe de ser um género literário novo, específico, particular, colhe, ou pode colher, influências de outros géneros literários, do simpósio, sim, mas também da biografia, da novela, da retórica, do apocalipse, do midras…
9. Enfim, pois que o resumo já vai longo, algo sobre a universalidade da mensagem de Jesus em Lucas. Um sinal de universalidade, certamente, no relato do nascimento de Jesus e na repetida referência à acomodação de Jesus na manjedoura, local marcadamente impuro pois que lugar de alimento para os animais. Mas dessa referência não poderá afastar-se a ideia de que o Filho de Deus que acabara de nascer encarnara também para a salvação do não judeu, do pagão, enfim, do impuro porque para um judeu era impuro todo aquele que não fosse judeu.
Em Lc não temos o mandado do ressuscitado para evangelizar, ao contrário do que acontece em Mt, 28,19-20 (aliás em termos bem mais amplos do que a mera evangelização). O mandado de Jesus aos discípulos, em Lucas, é o de que permaneçam em Jerusalém. Não para sempre mas até serem revestidos com a força do Alto (Lc 24,49). Há que conjugar, porém, com Act 1,8: «ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo». Eis, então, a garantia da universalidade da mensagem de Jesus, pois que ser testemunha de Jesus Cristo é dar testemunho d’Ele e dar testemunho d’Ele é, também, evangelizar… até aos confins do mundo.
Em rigor, não sabemos.
Mas, com alguma plausibilidade não isenta de reticências, poderá ser aquele companheiro de Paulo referido em Cl 4,14 como Lucas, o caríssimo médico. Que o autor do terceiro Evangelho foi companheiro de Paulo em algumas das suas viagens de missionação colhe-se, parece, de vários passos do Livro dos Actos em que o autor usa a 1ª pessoa do plural assim se incluindo entre aqueles de que fala, particularmente de Paulo (cf. Act 16,10-17). Todavia a questão da identificação não fica, nem assim, resolvida, «pelo facto estranho de Lucas nunca falar nas cartas de Paulo» (cf. P. Carreira das Neves, Evangelhos Sinópticos, Universidade Católica Editora, Lisboa, 2004, pag. 315).
2. Mas, permanecendo a dúvida sobre a identidade do autor podemos, ao menos, concluir sobre se era judeu ou pagão? Também sobre esta questão não há unanimidade mas a opinião mais comum é a de que seria de origem pagã. O que parece não sofrer contestação é que dominava com perícia e arte a língua grega (a Bíblia de Jerusalém, na introdução ao Evangelho de Lucas, refere-se-lhe como «escritor de grande talento e alma delicada»), facto que está longe de poder demonstrar a sua origem pagã pois que, certamente, muitos judeus, na Palestina e na diáspora, dominariam facilmente o grego.
3. A data da composição deste Evangelho também não é segura. O facto de, nos Actos, o autor se não referir à morte de Paulo, que segundo a opinião comum terá ocorrido em 66, poderá apontar para uma data anterior. Todavia, certos passos do Evangelho dão sinais de que teria já passado, ou ao menos estaria em curso, a primeira guerra dos judeus contra Roma (66-70) (ver, nomeadamente, Lc 19,41-44 e 21,20-24). Assim, a opinião mais comum é a que coloca a composição do terceiro Evangelho depois da destruição de Jerusalém, isto é, na década de 70-80.
4. Diferentemente dos outros dois Evangelhos que estudámos este começa por uma dedicatória, com destinatário e com justificação. Quanto ao destinatário, é Teófilo (amigo de Deus). Pessoa concreta, singular, como parece decorrer do sentido meramente literal ou, ao invés, uma referência colectiva, a cada leitor implícito, aquele que, porque amigo de Deus, estivesse interessado em conhecer a Boa Nova? Na ausência de elementos seguros, precisos, sobre a identificação do nomeado Teófilo qualquer das interpretações tem razoabilidade.
A justificação para a dedicatória, essa aponta para informações importantíssimas pois que Lucas se propõe narrar factos que já se haviam consumado, empreendimento a que outros já se tinham lançado. E pretende narrá-los seguindo dois elementos de rigor: atendendo à forma como os transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e se tornaram seguidores de Jesus; tudo investigando cuidadosamente desde a origem (Lc 1,1-4).
Ainda diferentemente dos de Mt e Mc o projecto de Lc é duplo como se alcança de Lc 1,1-4 e Act 1,1: no Evangelho, «primeiro livro», os ensinamentos de Jesus; nos Actos, as acções de missionação dos Apóstolos, particularmente de Pedro e Paulo mas sobretudo deste.
5. É, dos Evangelhos que estudámos, o mais longo: muito maior do que Mc é ligeiramente mais extenso do que Mt. Recolhe, como Mt, muito de Mc e da fonte “Q”. Mas é completado com material muito significativo próprio de Lucas. O material próprio de Lucas é mais extenso do que o material próprio de Mt e, quanto aos «ditos do Senhor» (hipotética fonte “Q”), Mateus e Lucas não se terão servido do mesmo texto pois que, usando esse específico material, contêm substanciais diferenças.
6. Quanto à estrutura é patente a semelhança com o encadeamento geral presente em Mc e Mt: uma pregação inicial pela Galileia, depois a aproximação a Jerusalém e, por fim, os sucessores nesta cidade.
Contudo, este encadeamento geral esconde estruturas mais específicas particulares de cada Evangelista. E, no que concerne a Lucas, optou-se nas aulas pela seguinte que apenas deixo enunciada e que destaca sete secções: 1,1-4 – prólogo; 1,5-4,13 – infância e preparação do ministério; 4,14-9,50 – ministério na Galileia; 9,51-19,27 – missão dos discípulos, curas, ensinamentos vários, discursos, parábolas… tudo num percurso de aproximação a Jerusalém; 19,28-21,38 – ministério em Jerusalém; 22,1-23,56 – prisão, paixão, morte e sepultamente; 24,1-53 – ressurreição, aparições e ascensão do Senhor.
7. Deixando de parte esta questão da estrutura – aliás importantíssima – pois que é na disposição e estruturação do material disponível que os evangelistas, todos eles, se revelam como verdadeiros autores, com narrativas e teologias próprias, darei alguma atenção a uma divisão mais evidente em Lc que é a que separa o chamado Evangelho da Infância do Evangelho propriamente dito. Isto para referir duas enormes inclusões que abarcam praticamente todo o Evangelho de Lucas.
A primeira tem que ver com o Templo: logo de início, Zacarias a quem coube «segundo o costume sacerdotal, entrar no Santuário do Senhor para queimar o incenso» (1,9) e, no fim (24,53), «estavam (os discípulos) continuamente no Templo, a bendizer Deus». A segunda, essa, tem que ver com os títulos de Jesus e compreende-se entre a anunciação (1,26-38) e o julgamento de Jesus no Sinédrio (22,66-71).
Ora, aquele enquadramento de todo o Evangelho na referência ao Templo, ver-se-á mais abaixo, surge de alguma forma desvalorizada: a construção de Jesus no Evangelho de Lucas não se faz na relação com o Templo mas, ao invés, com a casa/mesa. Por sua vez, aquela segunda inclusão acentua o carácter proléptico do Evangelho da Infância relativamente ao Evangelho propriamente dito. Com efeito, nas palavras do anjo e de Maria logo Jesus é apresentado como o Filho do Altíssimo; o que cumprirá a promessa messiânica de 2 Sm 7, pois que Deus lhe dará o trono de David e reinará eternamente e será chamado Filho de Deus. Também os do tribunal judaico perguntam a Jesus se Ele é o Messias, o Filho de Deus, a que Jesus responde: «Vós o dizeis; Eu sou». Ali, na anunciação, o reconhecimento por Maria, do filho que iria ter como Messias e Filho de Deus, a aceitação da maternidade do Filho do Altíssimo: «faça-se em mim segundo a tua palavra». Aqui, no Sinédrio, a rejeição que, sendo primeiro dos juízes, será depois de praticamente todo um povo. Ali, aceitação que conduz à vida. Aqui, recusa que encaminha para a morte.
8. Os Evangelhos sinópticos não são formas de auto-revelação de Jesus. São, isso sim, processos de construção de Jesus, isto é, textos de revelação progressiva, continuada de Jesus como o Messias e Filho de Deus pelo que vai dizendo, ensinando, fazendo e, também, pelo que livre e conscientemente suporta: a morte na cruz.
Ora, a figura de Jesus em Lucas vai sendo construída numa marcada relação com a casa e com a mesa. A casa está permanentemente presente em Lucas desde que Jesus, ainda no ventre de Maria, entra em casa de Isabel. Não obstante aquela inclusão acima referida, balizada pelo Templo, não é aqui, no espaço do sagrado, do simbólico, do extraordinário que se constrói a figura de Jesus em Lucas. É-o, ao invés, na casa, lugar do profano, do quotidiano, do abrigo humano. E, em estreitíssima relação com a casa, é à mesa que Jesus vai sendo revelado, onde convive, é certo, com impuros e fariseus, mas em que se demarca destes e se coloca ao lado daqueles, os marginalizados, os pobres, os humildes.
Quatro refeições importantes: em casa de Levi (5,29-…); em casa do fariseu Simão (7,36-…); em casa de um fariseu (11,37-…); ainda em casa de um fariseu (14,1-…). Uma constante: as refeições acabam em conflito. Sempre a discussão sobre o desrespeito pelas obras da Lei (pureza, respeito pelo sábado…) de que os fariseus acusam Jesus e os que o acompanham, e a relativização que Jesus faz de tais obras no rigorismo e formalismo com que os fariseus as praticavam e impunham.
A mesa, como um lugar de revelação de Jesus. E Lucas, muito provavelmente, a recorrer à figura literária grega do simpósio para a sua construção da figura de Jesus. Nada de estranhar pois que vimos, quando estudámos Mc, que o género literário evangelho, sem que deixe de ser um género literário novo, específico, particular, colhe, ou pode colher, influências de outros géneros literários, do simpósio, sim, mas também da biografia, da novela, da retórica, do apocalipse, do midras…
9. Enfim, pois que o resumo já vai longo, algo sobre a universalidade da mensagem de Jesus em Lucas. Um sinal de universalidade, certamente, no relato do nascimento de Jesus e na repetida referência à acomodação de Jesus na manjedoura, local marcadamente impuro pois que lugar de alimento para os animais. Mas dessa referência não poderá afastar-se a ideia de que o Filho de Deus que acabara de nascer encarnara também para a salvação do não judeu, do pagão, enfim, do impuro porque para um judeu era impuro todo aquele que não fosse judeu.
Em Lc não temos o mandado do ressuscitado para evangelizar, ao contrário do que acontece em Mt, 28,19-20 (aliás em termos bem mais amplos do que a mera evangelização). O mandado de Jesus aos discípulos, em Lucas, é o de que permaneçam em Jerusalém. Não para sempre mas até serem revestidos com a força do Alto (Lc 24,49). Há que conjugar, porém, com Act 1,8: «ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo». Eis, então, a garantia da universalidade da mensagem de Jesus, pois que ser testemunha de Jesus Cristo é dar testemunho d’Ele e dar testemunho d’Ele é, também, evangelizar… até aos confins do mundo.
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