O Evangelho segundo S. Mateus (Mt) é o Evangelho sinóptico mais extenso - com 28 capítulos - e caracteriza-se pela sua organização sistemática, de que são exemplo o conjunto de 5 discursos de Jesus, que por sua vez reúnem uma série de sentenças suas.
Verificamos que Mt tem igualmente uma preocupação histórica. Este facto, aliado à sua sistematicidade e clareza fizeram com que fosse "ab initio" o Evangelho por excelência; o mais utilizado pelas primeiras comunidades cristãs. De resto, foi sempre muito relevante a importância eclesiológica deste Evangelgo que, diga-se de passagem, é o único Evangelho em que podemos encontrar a palavra "ekklesia", mais concretamente temos dela 3 menções, a saber: Mt 16,18; 18,17. Assim, não é por acaso que Mt também é designado como o "Evangelho da Igreja".
O Evangelho terá sido escrito algures entre as décadas de 70 e 80, sendo dirigido a um público judaico. Por isso é que o autor chama constantemente a atenção para o facto de, em Jesus, se "cumprirem as Escrituras" e que por intermádio das suas palavras e obras tudo se realizar "em conformidade com as Escrituras". Claramente, procura convencer um público hebraico, conhecedor da Lei mosaica, dos profetas e dos demais livros sapienciais.
Além do mais, o período de redacção deste Evangelho explica o tom confrontacional e polémico em relação ao judaísmo farisaico. Com efeito, com a destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 AD, às mãos de Tito, o império romano esmagou aquela que seria conhecida como a primeira guerra judaica (à qual Flávio Josefo dedicará um dos sues livros). Com a destruição do templo, a classe sacerdotal - que se ocupava dos sacrifícios cruentos - desaparece, assim como o partido dos saduceus, classe sacerdotal donde provinham tradicionalmente as famílias dos sumos sacerdotes. É dizer, o judaísmo que se impõe é o judaísmo de tendência farisaica, com o centro religioso na sinagoga, algo que acentuou com o concílio de Jâmnia em finais do s. I AD.
Ora, o judaísmo farisaico era muito hostil ao cristianismo nascente. Assim, não espanta que Mt seja perpassado por uma veia anti-farisaica.
Outro elemento que não pode ser descurado em Mt prende-se com a eminente preocupação ética. Claro está, a ética das Bem-aventuranças - Mt 5-7 - é "critical". Trata-se de uma ética que se afigura bem mais profunda e exigente que a do Decálogo moral, de que são exemplos o apelo à misericórdia,`a mansidão, ao despendimento e ao perdão dos inimigos, tudo valores que passam desatendidos à ética do Decálogo (ainda que não a toda a ética veterotestamentária, na qual a "raham" [misericórdia] desempenha um papel muito importante).
A consciência de que Antiga Aliança chegara ao fim dos seus dias revela-se cristalina no mandato final de Jesus Cristo ressuscitado, quando Jesus exorta os Apóstolos a partirem em missão, fazendo discípulos de todos os povos (Mt 28, 16-20).
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
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