Este Evangelho é tradicionalmente o primeiro Evangelho, conhecido aliás como “o Evangelho”, devido à sua qualidade literária, com um olhar trabalhado sobre Jesus. É composto por um texto muito sistematizado, bem arrumado, com cinco grandes discursos de Jesus e as parábolas num único capítulo. Como veremos adiante, o facto de termos cinco discursos não é casual.
Podemos dizer que o Evangelho de Mateus tem cinco grandes partes e uma introdução, olhando para o conjunto da narrativa
Introdução 1, 1 – 4, 22
Segundo momento 4, 23 – 9, 35 – Actividade de Jesus que O revela como poderoso em palavras e obras. A autoridade na acção de Jesus.
Terceiro momento 9, 36 – 12, 50 – O envio e actividade dos discípulos para continuarem a sua obra
Quarto momento 13, 1 – 17, 27 – retirada da vida pública, mas actua na formação dos discípulos em privado.
Quinto momento 18, 1 – 22, 46 – A grande rotura com o judaísmo.
Sexto momento 23, 1 – 28, 20 – Discurso de despedida, Paixão e relatos pascais das aparições de Jesus.
Tentando perceber a sua formação, vemos que o Evangelho de Mateus é um Evangelho de síntese. Está próximo de Marcos, há um esquema marcano nesta narrativa, mas Mateus não é só Marcos. É Marcos mais a fonte Q, mais material exclusivo e mais o ordenamento que Mateus dá a todo este material. Oferece, portanto, algo mais que Marcos (Mc tem 16 caps, Mt tem 28).
Para compreender o Evangelho de Mateus devemos perceber o contexto em que foi escrito. Uma época de crise de autoridade que minava o judaísmo onde nasceu Jesus. Só assim se compreende a acção de Jesus. É um ponto fundamental do debate cultural e religioso que está na origem do cristianismo. A grande questão com a qual Mateus se confronta é como é que o discurso de Jesus e a pretensão cristã dialogam com o judaísmo. Em que medida é que Jesus cumpre e supera Israel. É conhecido como o Evangelho judeu: aqui, Jesus é mais judeu que noutros evangelhos. Aqui, Mateus mostra como Jesus é o Messias de Israel. Mas é aqui que o judaísmo é mais colocado em causa (confronto maior com as autoridades, mais do que nos outros evangelhos). Aqui há o conflito declarado (Os fariseus não O convidam para suas casas, temos as sete maldições aos fariseus). A questão da relação da Igreja cristã com o judaísmo é decisiva nas origens. A identidade cristã é trabalhada de modo mais intenso aqui.
Este Evangelho mantém uma forte relação com o Antigo Testamento. Mateus tem de defender Jesus. Daí as constantes alusões ao que tinha sido dito pelos profetas, para confirmar o messianismo de Jesus.
Aparecem-nos vários discursos, como já tinha sido dito. Estes cinco discursos contrapõem-se com os cinco livros da Lei. Jesus emerge como o novo Moisés. Porque este é o Evangelho da resposta cutural e religiosa que o cristianismo dá às acusações do judaísmo. Acusam Jesus de ser um impostor. O Evangelho de Mateus é a resposta judaica aos judeus.
Mateus e Lucas abrem com o Evangelho da infância. Não é um retrato da infância, mas uma meditação teológica sobre a identidade de Jesus. São guias prolépticos, mapas antecipados para tudo o que virá. Mateus começa por Abraão até Jesus. Liga Jesus ao património de Israel. Jesus é filho de Israel.
Na genealogia de Jesus há personagens que não são judeus (Rute e Raab são estrangeiras). Logo desde aqui temos a presença da universalidade neste Evangelho. Jesus não é um judeu puro, na sua genealogia já há sangue pagão. Isto liga-se ao final de Marcos, onde Jesus não manda ir só a alguns sítios, mas a todas as nações. A abertura é total. Já em Mateus 10, no envio dos discípulos, Jesus os havia mandado em missão.
Ainda no Evangelho da Infância temos duas figuras em contraposição: Herodes e José. Herodes representa o poder nomeado pelos romanos. José é o que faz tudo para proteger Jesus, e Herodes sente Jesus como uma ameaça. Encontramos isso em Saul e David. David foi perseguido por Saul, que via em David em ameaça. Isto vai precipitar a sucessão. Herodes persegue Jesus, mas nada pode travar a realeza de Jesus. Esta estrutura paralela com o Antigo Testamento é mais um sinal deste diálogo com o judaísmo, para comprovar que, de facto, Jesus é descendente de David.
Há também toda uma linguagem escatológica e uma dimensão ética, sublinhada por palavras como “justiça”, “perfeito” ou “hipócrita”, que sublinham a exigência moral deste evangelho.
Outras figuras de estilo mais frequentes povoam os escritos de Mateus: paralelismos e repetições, muito comuns nos discursos semíticos. Isto advém da identidade judaica do próprio autor do Evangelho. Por seu turno, também vemos na organização dos textos algumas inclusões – quando dois episódios delimitam toda uma secção (como acontece na chamada secção do Caminho, que começa e acaba com curas de cegos).
É um evangelho repleto de analepses e prolepes: a palavra de Jesus cumpre-se não apenas num futuro pós-pascal mas já, na vida dos seus discípulos. A palavra de Jesus é digna de confiança porque se realiza.
O tema do discípulo é muito importante em Mateus; é uma chave de leitura, permite-nos ir até ao coração do texto. E o facto de ser no final que se torna esta questão mais forte, e o ser um imperativo de Jesus o fazer discípulos, ilumina o próprio texto evangélico. O Evangelho é uma máquina de fazer discípulos, têm um carácter didáctico, é uma escola de formação cristã. Os cristãos são formados no Evangelho. Por isso, ignorar as Escrituras é ignorar Jesus. Eu cumpro a última ordem de Jesus cumprindo o que Jesus ensinou, e isso está no Evangelho. O carácter didáctico está no centro da estratégia de Mateus. É o Evangelho mais consensual, mais didáctico. E o facto de este Evangelho ter nascido num contexto polémico faz-nos perceber como ele é uma apologia face às acusações do judaísmo da época.
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