Caros colegas, pediram-me para tecer algumas considerações sobre Lc 16, 19-30
Achei interessante partilhar convosco.
Nota1: Versão Grega do texto http://www.greekbible.com/index.php (excelente website, visitem)
Nota2: Contém linguagem “caseira”
19 Ἄνθρωπος δέ τις ἦν πλούσιος, καὶ ἐνεδιδύσκετο πορφύραν καὶ βύσσον εὐφραινόμενος καθ' ἡμέραν λαμπρῶς.
-» O desenho desta parábola pretende tornar viva e palpável a argumentação prévia de Jesus: o perigo de amar o dinheiro (Lc 16, 1-2); a forma de agir menos correcta dos ricos (16, 9-11); Deus que conhece e julga cada um pelo que realmente ele é (16, 15); que aqueles que não usam as suas de forma justa e honesta não são recebidos no Reino dos Céus (16, 11-12); que eles – ricos – se negaram a receber o ensino dos antigos nomeadamente de Moisés e dos profetas (16, 16-17). Acima de tudo isto haveria o dever dos mais ricos mostrarem simpatia, benevolência (bem-querer) e beneficência (bem-fazer) aos pobres. A estrutura desta parábola ilumina todas estas premissas e ainda mostra que os Fariseus, apesar da sua correcção exterior poderão estar completamente perdidos.
-» Vestido de púrpura e linho fino – A cor e o material das suas vestimentas reforçam ainda mais o ser “homem rico”. Não bastando, fazia esplêndidos banquetes e, estes, não ocasionais, mas diários. Com estes elementos o homem, que já sabíamos rico, agora sabemo-lo muito rico e ostensivo. Esta parábola enquadra-se, sem dúvida na “retórica de persuasão” que os Evangelistas usam e colocam no agir de Jesus.
20 πτωχὸς δέ τις ὀνόματι Λάζαρος ἐβέβλητο πρὸς τὸν πυλῶνα αὐτοῦ εἱλκωμένος
-» Um pobre – Qual é o contrário de rico? – Pobre (aparece a palavra pobre 11 vezes no Evangelho de Lucas – os outros três evangelhos juntos somam 14…).
Lázaro – em hebraico significa exactamente aquele que é pobre e necessitado de ajuda.
De especial interesse o facto de o rico não “ter” nome e de o Pobre ter. O nome no contexto bíblico é extremamente relevante – significa a pessoa toda, se é anónima será porque não será assim tão importante.
Jazia ao portão – em ordem a receber algum auxílio.
Com chagas/úlceras – Já não bastava ser pobre e ainda sofria terrível doença física.
Todo este vocabulário parece destinar-se à criação de um paralelo antitético extremo entre os dois personagens. Este processo de construção de duas personagem, mas no qual uma se subleva posteriormente à outra dá-se o nome de “sincrise” – os evangelistas usam-no muitas vezes com Jesus.
21καὶ ἐπιθυμῶν χορτασθῆναι ἀπὸ τῶν πιπτόντων ἀπὸ τῆς τραπέζης τοῦ πλουσίου: ἀλλὰ καὶ οἱ κύνες ἐρχόμενοι ἐπέλειχον τὰ ἕλκη αὐτοῦ.
-» Ele desejava o pouco que fosse do rico, o menos que pudesse ser. Embora não se diga que o rico era completamente completamente indiferente, parece mostrar-se que os cães mostram muita mais compaixão que ele. Que paralelo! os cães melhores que uma pessoa…
22ἐγένετο δὲ ἀποθανεῖν τὸν πτωχὸν καὶ ἀπενεχθῆναι αὐτὸν ὑπὸ τῶν ἀγγέλων εἰς τὸν κόλπον Ἀβραάμ: ἀπέθανεν δὲ καὶ ὁ πλούσιος καὶ ἐτάφη.
-» Hui hui… Neste versículo tudo parece virar-se de ao avesso: então o pobre é “levado pelos anjos para o seio de Abraão” e o rico apenas é sepultado? Usando uma expressão popular, afinal parece que “o dinheiro não compra tudo”.
Um contexto angelical (literalmente) de carinho e de delicadeza contrastando com uma frieza tamanha.
23 καὶ ἐν τῷ ᾅδῃ ἐπάρας τοὺς ὀφθαλμοὺς αὐτοῦ, ὑπάρχων ἐν βασάνοις, ὁρᾷ Ἀβραὰμ ἀπὸ μακρόθεν καὶ Λάζαρον ἐν τοῖς κόλποις αὐτοῦ.
-» O rico afinal foi parar à “morada dos mortos” e é sujeito a tormentas.
ᾅδῃ - Hades: o sítio escuro, onde não se vê.
Parece que porém o rico viu (deu-se conta – apercebeu-se – compreendeu…).
Os pedidos de um “pequenino” e insignificante pobre foram atendidos por Deus, enquanto o “dinheiro” do rico parece não ter “valido” de muito
24 καὶ αὐτὸς φωνήσας εἶπεν, Πάτερ Ἀβραάμ, ἐλέησόν με καὶ πέμψον Λάζαρον ἵνα βάψῃ τὸ ἄκρον τοῦ δακτύλου αὐτοῦ ὕδατος καὶ καταψύξῃ τὴν γλῶσσάν μου, ὅτι ὀδυνῶμαι ἐν τῇ φλογὶ ταύτῃ.
-» “Pai Abraão”: Afinal ele seria pai do rico sem nome? De Lázaro? Dos dois…?
Note-se que o rico sabe da sua condição pecadora. Não pede para ir para o lugar onde se encontra Lázaro, pede a piedade e misericórdia de Abraão.
Mais, ainda se humilha ao ponto de pedir para que se deixe que aquele ao qual havia negado serviço de caridade (rico ao pobre) lhe servisse agora esta mesma caridade (pobre ao rico). Aqui mostra o quão humilde se tornou após o “cair em si”. Interessante o mais pobre e insignificante ser humano à face da terra nas contas de Deus tem reservado um destino belo e desejado.
Aconselha-se, implicitamente, aos ricos a olhar com afeição os pobres…
O pobre pedia o que caia da mesa do rico para saciar a sua fome.
Agora é o rico que implora uma gota de água ao pobre para acalmar a sua enorme sede.
As chamas terão um sentido figurativo: aquilo que causa tão grande sofrimento.
25 εἶπεν δὲ Ἀβραάμ, Τέκνον, μνήσθητι ὅτι ἀπέλαβες τὰ ἀγαθά σου ἐν τῇ ζωῇ σου, καὶ Λάζαρος ὁμοίως τὰ κακά: νῦν δὲ ὧδε παρακαλεῖται σὺ δὲ ὀδυνᾶσαι.
-» “Filho” Será tão difícil a Abraão ver o seu filho condenado. Será tão difícil ao filho ser chamado como tal e ver-se condenado…
“Lembra-te”: uma palavra afiada como “uma espada de dois gumes”. Ele já sabe, mas ainda lhe é lembrado novamente da causa do seu sofrimento.
Os “bens”: propriedade, prestígio, honra… oposição completa aos “males”.
“Mas agora”: tudo muda! Lázaro tem a mais profunda e real experiência de felicidade; o rico tem a mais profunda e real experiência de infelicidade.
26καὶ ἐν πᾶσι τούτοις μεταξὺ ἡμῶν καὶ ὑμῶν χάσμα μέγα ἐστήρικται, ὅπως οἱ θέλοντες διαβῆναι ἔνθεν πρὸς ὑμᾶς μὴ δύνωνται, μηδὲ ἐκεῖθεν πρὸς ἡμᾶς διαπερῶσιν.
-» “Grande abismo”: não há forma de passar. Tudo isto tem o objectivo de mostrar a total incomunicabilidade entre os dois “lados”.
Na minha interpretação pessoal, e um pouco ao contrário de alguns comentários que li, esta passagem mostra o total poder de Jesus (entenda-se que estes comentários não põem em causa o poder de Jesus expressamente mas a possibilidade de comunicação entre estes dois lados): até de estabelecer uma ponte neste abismo… como? Se eram realidades incomunicáveis, como é que Jesus as coloca aqui em comunicação? – Atenção, como disse isto é uma interpretação pessoal que carece de desenvolvimento e pode estar errada, até porque a quase totalidade dos biblistas discordam dizendo que a condenação é uma condenação eterna e sem comunicação com os não condenados.
27εἶπεν δέ, Ἐρωτῶ σε οὖν, πάτερ, ἵνα πέμψῃς αὐτὸν εἰς τὸν οἶκον τοῦ πατρός μου,
-» Sabendo da sua miséria, o rico procura avisar para que outros não têm a mesma sorte. Imaginemos Jesus a contar esta história… e a forma como ela nos chega hoje: nós não queremos esse destino, ou queremos?
Numero cinco: alguns autores dizem que não parece ter um significado importante. Mas nada na bíblia está por acaso (acreditamos): será o referente ao número de dedos da mão (que também se falava acima); será metade de 10, número usado 9 vezes por Lucas (14, 31; 15,8; 17,12; 17,17; 19,13; 19,16; 19,17; 19,24; 19,25) e tão importante no contexto bíblico; comparar ainda com as 10 vezes que aparece o número 5 no evangelho de Lucas (1,24; 9,13; 9,14; 9,16; 12,6; 12,52; 14,19; 16,27; 19,18; 19,19); os cinco livros da lei…
28ἔχω γὰρ πέντε ἀδελφούς, ὅπως διαμαρτύρηται αὐτοῖς, ἵνα μὴ καὶ αὐτοὶ ἔλθωσιν εἰς τὸν τόπον τοῦτον τῆς βασάνου.
-» Aqui salienta-se o facto de o rico ter plena consciência da sua situação de desmerecimento e nem sequer ter pedido para ser ele a ser enviado.
29λέγει δὲ Ἀβραάμ, Ἔχουσι Μωϋσέα καὶ τοὺς προφήτας: ἀκουσάτωσαν αὐτῶν.
-» Eles já têm tantas indicações de como devem proceder! Este tom imperativo e impetuoso até parece mostrar Abraão chateado… afinal para que querem a lei e os profetas?
30ὁ δὲ εἶπεν, Οὐχί, πάτερ Ἀβραάμ, ἀλλ' ἐάν τις ἀπὸ νεκρῶν πορευθῇ πρὸς αὐτοὺς μετανοήσουσιν.
-» “Não”: este rico conhece bem os do seu tipo…são aqueles que menos ouvidos dão à lei e aos profetas.
31εἶπεν δὲ αὐτῷ, Εἰ Μωϋσέως καὶ τῶν προφητῶν οὐκ ἀκούουσιν, οὐδ' ἐάν τις ἐκ νεκρῶν ἀναστῇ πεισθήσονται.
-» Aqui o autor lucano coloca Jesus a colocar-se a si mesmo na história através do verbo ressuscitar (ἀναστῇ). Realmente isto parecer-nos-ia suficiente para acreditar, porém também sabendo da ressurreição de Jesus nem todos acreditam. Aqui está o mistério da fé deixado por Lucas nas mãos do leitor que escuta Jesus.
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