quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mateus, o Evangelho da Igreja

Este exercício de resumir qualquer evangelho em palavras pessoais após a leitura é muito difícil. Porém, quando comecei a ler Mateus notei que até se conseguem “tirar notas”, como se de uma aula de teologia se trata-se. Aqui ficam algumas (resumidas) considerações que fui formulando a partir das leituras de este Evangelho de S. Mateus.
Desde logo notei que é o primeiro Livro do NT e mais longo dos quatro evangelhos. Também me pareceu que quase em que cada virgula encontra eco no AT. Em refere-se inúmeras vezes o tema do realizar-se, o realizar-se do Antigo Testamento. Impressionou-me ainda o facto de se dar tanta importância a S. José. Ora, estas minhas perplexidades foram objecto de estudo nas aulas e agora já compreendo melhor o seu porquê.
Outra das coisas que me toucou foi o facto de este Evangelho procurar dizer-nos do acontecimento um ponto de viragem crucial na história. Este ponto de viragem é o realizar-se, de forma dramática, das profecias e anseios do AT na pessoas de Jesus. Será talvez por isso que temos toda a história de Jesus, desde o seu miraculoso nascimento; o seu ensinamento que pela sua autoridade supera de longe qualquer rabino seu contemporâneo; temos os milagres que transcendem qualquer curandeiro. Somos introduzidos À Pessoa que é A Pessoa chave da história. O reconhecimento de Jesus como Emanuel é justificado por tudo e por todos. Neste sentido um dos exercícios que tentei fazer foi procurar os títulos de Jesus em Mt. Encontrei: Todo Poderoso (cf. Mt 28, 18); Esposo (9, 15); Emanuel (1, 23); Rei dos Judeus (27, 11); Mestre, catorze vezes – embora traduzindo pelo menos dois termos diferentes a partir dos casos que comparei, Rabbi e Didaskalós (aparece catorze vezes na versão portuguesa referida); Filho do Homem (vinte e nove vezes). Certamente haverão mais, este foram os que encontrei assim mais explícitos.
Não sei se correctamente, mas oferece-me dizer que o Cristo de Marcos é cósmico e atrai o universo no seu todo a Si num movimento centrípeto de aproximação contínua. Tudo isto se inscreve, parece-nos, num segundo nível, o que Mateus chama repetidas vezes os Reino do Céu (32 vezes na bíblia dos Capuchinhos, ed. de 2001). Isto designará a gramática de uma nova relação que se estabelece entre o ser humano e Deus. Jesus apresenta nesta nova gramática relacional um caminho inaudito: Ele cura e opera milagres, mas vai muito além disso, Ele morre para espiar (se assim podemos dizer) os pecados humanos.
A mim também me chamou à atenção o facto de uma “primeira parte” de Mt não haver espaço para dúvidas: os discípulos estão “despertos” e deixam logo tudo e seguem Jesus. À medida que caminhamos para o trágico final de Jesus eles vão “adormecendo”. Eu perguntava-me quando lia: como é que Pedro e os outros, que ao princípio deixavam “imediatamente” tudo (4, 20ss), depois adormecem e negam Jesus em momentos cruciais (26, 14-16; 26, 40- 46; 27, 69-75)?
Estranhei também ao ler Mateus a sugestão que (mais ao menos a meio do Evangelho fica clara) Jesus não veio primeiramente para ensinar e curar mas para morrer… De repente, este Evangelho parece tornar-se uma narrativa da paixão com uma extensa introdução…
Outro, e por último, dos elementos a que me tornei sensível na leitura foi a menção da “fé” como critério de possibilidade: os de pouca fé encontram dificuldades em entender e em esperar mudança; por outro lado ao que tem fé tudo é possível (cf. 6, 30; 8, 10; 8, 13; 8, 26; 9,2; 9,22; 9, 29; 13, 58; 14, 31; 15, 28; 16, 8; 17, 20 e 21, 21-22).
Concluindo só escrever que no transporte deste Evangelho para o século XXI eu noto um “overlap” (sobreposição) das questões de fundo do ser humano: as esperanças, os medos, as frustrações, a realidade do sofrimento, a realidade da morte… O Deus que envia Jesus responde a estas questões, e essas respostas estão no Evangelho de Mateus. E Evangelho da Igreja porqu: porque a meu ver a ensina, a encoraja, lhe dá Esperança (além de mencionar duas vezes a palavra Igreja: 16, 18 e 18,17).

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