Em poucas palavras chave podemos, em jeito impressionista, definir o Evangelho de Lucas. Encontro, Palavra, Mesa, Salvação, Presença de Deus.
Alguns relatos são muito importantes para se perceber o modo de Lucas contar Jesus. A passagem dos discípulos de Emaús é como um espelho que contém todo o Evangelho. Seguindo a ordem das três primeiras palavras-chave ap+resentadas, é-nos relatado um encontro, uma palavra dada e um acontecimento à mesa: os discípulos estão em Jerusalém e voltam lá. No encontro Jesus é ainda um desconhecido, na Palavra é alguém que faz arder o coração, em casa e na Mesa Jesus é reconhecido. Tudo isto contado com a mestria própria de um autor culto e interessado em catequisar. São Lucas, mostra uma visão pessoal de Jesus e da novidade da sua mensagem. É experiência pascal cristã.
A Mesa, em Lucas, é lugar de revelação em Jesus. Muitos relatos são em mesas, ou à volta das refeições (utilizando o género literário do simpósio). Ela estabelece um pacto narrativo, um protocolo. É lugar de comunicação. Comer não é apenas um acto biológico, é antropológico, humano. Não é por acaso que Lucas fala disto. E ele é um homem culto, que sabe como contar uma história.
Lucas tem um projecto, este Evangelho não é escrito ao acaso. Há um investimento narrativo e teológico.
Em termos espaciais, Lucas começa na Judeia, no Templo. E acaba “E estavam continuamente no templo a bendizer a Deus”. Tal como em Mateus, o autor utiliza a figura de estilo da inclusão. Contudo, esta utilização é enganosa: o evangelho de Lucas não escolhe o templo, mas a casa, para relatar os encontros e acontecimentos mais significativos, como o Anúncio a Nossa Senhora.
Também na estrutura de Lucas vemos a importância da mesa:
1. 1, 1-4: Prólogo
- 1, 5 – 4, 13: Infância e preparação do ministério de Jesus
- 4, 14 – 9, 50: O ministério de Jesus na Galileia
- 7 – Casa do centurião e fariseu
- 8 – “A Tua Mãe e irmãos estão lá fora” (de casa)
- 8 – Casa de Jairo
- 9, 51 – 19, 27: Envio dos 72 discípulos, a quem Jesus manda entrar na casa e comerem daquilo que lhe derem. O evangelho passa-se em comunidade, construindo relação:
- 10 – Casa de Carta e Maria
- 11 – Convite de fariseu e come com ele
- 14 – Fariseu
- 15 – Evangelho dos perdidos. Jesus acusado de comer com pecadores.
- 19, 28 – 21, 38: Ministério de Jesus em Jerusalém. Aqui não há referências a casa.
- 19, 44 – Jesus não será reconhecido em Jerusalém. Também porque não há nenhuma referência a casa e mesa
- 22, 1 – 23, 56: Paixão-
- 22, 13-19 – Casa da Última Ceia.
- Jesus é preso e levado para a casa do Sumo Sacerdote
- 24, 1-52: Discípulos de Emaús. A Paz esteja convosco.
Aqui sentimos como Lucas privilegia o campo semântico da refeição.
Zaqueu e Emaús só nos aparecem em Lucas.
A mesa é lugar da conversão e da revelação da Jesus e por isso vemos por todo o Evangelho o vocabulário ligado à mesa e à comensalidade.
A alegria de estar à mesa
Lc 5, 29 | 14, 13 | 12, 19 | 15, 23 |
Filho pródigo – banquete
A mesa e o alimento tem um papel muito importante. O primeiro mandamento de Deus é de tipo alimentar. Não comer do fruto da árvore – Génesis.
No Êxodo temos a refeição para selar a Aliança – Os Anciãos representam o povo, contemplam a Deus e comem e bebem. Daqui se pode ler Emaús, e Ceia, etc.
Ex 24, 9-11
Aparição do Senhor - 9Moisés subiu com Aarão, Nadab e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. 10Contemplaram o Deus de Israel. Sob os seus pés, havia como que um pavimento de safiras, tão puro como o próprio céu. 11E Ele não estendeu a mão contra estes eleitos dos filhos de Israel, os quais contemplaram a Deus e depois comeram e beberam.
Vemos também a dimensão profética do banquete. Falar de escatologia é falar de banquete.
Quando Jesus ganha a fama de glutão, há um propósito na prática de Jesus. Actua no interior da casa, porque é que aí se expressa o reino de Deus; Ele sabe que em Israel, uma refeição é significante. É imagem da refeição definitiva. Entrar em casa de alguém supõe relação, conhecimento ou amizade.
É um chamado campo semântico, este tema da refeição, no qual se compreende todo o Evangelho. Em Lucas há uma teologia da refeição. É uma das linhas semânticas mais significativa de todo o Evangelho.
Começa na primeira refeição de Jesus, com Levi.
Evangelho da infância
+
Evangelho
O Evangelho da Infância é mapa, é guia proléptico. Antecipa as grandes definições pascais de Jesus.
O texto da Anunciação a Maria diz muito de Jesus: o anjo a dizer quem é Jesus e esse material identitário de Jesus vai ser chave para entendermos o Evangelho.
Também quando os anjos anunciam Jesus como o Salvador estão a dar uma mensagem central em Lucas:é um sinal, uma teofania, manifestação de Deus.
“Hoje nasceu para vós o Salvador”. Este é o grande tema de Lucas.
Jesus nasce numa manjedoura. – é muito importante para este campo semântico. A manjedoura é onde se alimentam os animais, os impuros. Ele é acusado de ser amigo dos publicanos, dos pecadores, e de comer e beber com eles. O tema central é a universalidade da salvação.
Por fim, vemos como para além da passagem de Emaús, também o capítulo 7 é muito importante para percebermos Lucas. Este capítulo tem três temas fundamentais:
Tema da autoridade
Tema da profecia
Tema da visita de Deus
Jesus tem autoridade. Autoridade que se manifesta pela actividade taumatúrgica: curas e sinais como milagres, que atestam a autoridade de Jesus. Jesus cura, dá a libertação e actua com sucesso sobre doenças. Jesus aparece com uma autoridade inédita. A questão da autoridade em Jesus só se percebe neste tempo e neste mundo judaico, em profunda crise de autoridade. Sem uma autoridade política, Israel estava dividida em muitas correntes. Estes milagres mostram o espaço de liberdade que Jesus tem. Jesus é uma figura de liberdade; a autoridade com que Ele actua e fala não é tutelada, vem dele próprio. Jesus é guiado pelo Espírito. Quando Jesus põe a andar um coxo, temos uma transformação qualitativa da realidade, ocorrida num corpo, que se transforma em sinal. Sinaliza-se a vitória do poder de Jesus sobre as forças que aprisionam os homens ao mal. É um presente que emerge pela acção salvífica de Jesus. O sinal é instrumental em Lucas. Conservando a sua dimensão futura, as curas significam a inscrição do reino de Deus no presente: “O reino de Deus chegou até vós”.As curas têm um papel de testemunho, são para a renovação escatológica e messiânica. São a promessa e garantia de uma mudança de renovação.
Jesus tem o título de profeta. Há um halo profético que atravessa a acção de Jesus. O reconhecimento da identidade profética de Jesus é de todos. “Um grande profeta está entre nós: Deus visitou o seu povo” (Lc 7, 16)
Jesus representa o tema da visita de Deus. Lucas tem a intenção de preparar o programa messiânico de Jesus. Jesus fez muitas curas, até curar cegos. Jesus cumpre de forma cabal as expectativas messiânicas definidas por Isaías, de modo a corresponder ao Messias. Jesus permite em analepse, revisitar todo o passado messiânico. Em Cafarnaum, pela Galileia, Jesus tinha feito tudo isto descrito em Lc 7, 22. Os pobres são evangelizados. As curas estão ao serviço do Evangelho. A salvação passa pela relação com Jesus; há centralidade cristológica na forma como esta bem-aventurança está construída. Em Lc 7, 18-28 o narrador conta-nos que os emissários de João Baptista vêm perguntar a Jesus, mas não sabemos a reacção de João Baptista. O Evangelho mostra-nos Jesus. Todos os personagens têm mediatismo se estiverem perto de Jesus. Neste tema, o autor utiliza uma figura de estilo chamada síncrise: uma técnica de construir um personagem comparando-o com outro. Neste caso, Jesus e João Baptista. Temos o anúncio a Zacarias e anúncio a Maria. Nascimento de João e nascimento de Jesus. Benedictus e Magnificat. Pregação e baptismo por João e depois por Jesus. Todos estes paralelos para mostrar que Jesus é maior. Em Dt 18, 15-18 Moisés é comparado a um profeta. Jesus é claramente o novo Moisés. Jesus é um profeta, e mais do que um profeta. O modelo profético (João Baptista, Elias, Moisés) é muito importante para apresentar Jesus. Mas Jesus põe em causa o paradigma de profeta, Ele não é apenas profeta. Porque Ele é capaz de algo que o profeta não faz. Jesus testemunha a misericórdia de Deus para com os pobres e sofredores do seu tempo. Jesus é o visitador escatológico da história, com o poder de perdoar os pecados. Por isso a última pergunta do capítulo 7 relança o Evangelho na direcção certa: a teologia de Lucas é teologia de salvação: Lc 7, 48”Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?»”.
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