quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O micro-relato e a sequência narrativa.

Micro-Relato

Marcos 9, 2-10
Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim. 4Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele. 5Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.» 6Não sabia que dizer, pois estavam assombrados. 7Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.» 8De repente, olhando em redor, já não viram ninguém, a não ser só Jesus, com eles. 9Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos.

Tempo: “ Seis dias depois…”.
Espaço: “…um monte elevado”.
Personagens: “Jesus, Pedro, Tiago e João” e “Elias e Moisés”.
Tema/Intriga: “ transfigurou-se diante deles”.
Género Literário: Trata-se de uma Revelação.

 Dentro do micro-relato temos as cenas que compõem o relato e essas cenas por sua vez realizam-se em três planos, que exemplificaremos a partir deste Evangelho.

Plano Geral: «Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz».

Plano Médio: «Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele».

Grande Plano: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.»; …«ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto».

Sequência

Marcos 6,30 – 8,21
Nestas passagens do evangelho encontramos uma sequência, que nos mostra um caminho de curas e milagres que Jesus realiza perante os seus discípulos. Jesus primeiramente encontra-se em Nazaré com os sues discípulos e depois caminha por, Tiro Sídon e Decápole. Notamos que muda o espaço; as personagens algumas permanecem e outras mudam; e muda o tema e o género literário. Porém notamos que todo o percurso é feito pelos milagres e ensinamentos aos seus discípulos.

Podemos verificar que Marcos trabalha muito bem no seu evangelho as sequências.

Construção das personagens na narrativa: "telling" e "showing"

Se a construção se faz pela fala, pelo que a personagem diz, temos o telling como modo de construção da personagem; se pelo contrário se atende às acções, às atitudes, aos comportamentos, em suma, ao fazer que não ao falar, então teremos o showing como modo de construção.
Pode acontecer, também, que a construção se faça pela concorrência destes dois modos.

Eis alguns exemplos de construção de personagens em Lucas:

1. Lc 10, 38-41. Marta está aí construída em telling, descrita pelas palavras de Jesus e dela mesma como inquieta, perturbada, atarefada com muitas coisas, desatenta do fundamental, isto é, da atenção ao Senhor. Maria, ao invés, é-nos descrita em showing, sentada humildemente, quiçá carinhosamente aos pés do Senhor, escutando-O, presa à Sua palavra, tirando assim o melhor proveito da presença de Jesus em sua casa.

2. Lc 19, 1-10. A personagem de Zaqueu é construída, em parte substancial, em showing. O seu afã em encontrar Jesus que o leva a subir a uma árvore para suprir a sua baixa estatura, mas que revela também a sua humildade, pois o seu estatuto de homem rico e de alto funcionário lhe permitiria, querendo, forçar a sua presença na primeira fila; a prontidão e alegria com que recebe a ordem - pois que de ordem se trata - para descer e acolher Jesus em sua casa. Tudo mostra como Zaqueu ansiava por um encontro com Jesus. A personagem de Zaqueu é, depois, completada em telling (v8) em que ele, falando, declara o propósito de dar aos pobres, com excesso, parte dos bens que obtivera na sua actividade de cobrador de impostos.
Estamos perante uma construção mista de telling e showing.

3. Lc 10, 30-37. Acontece aqui algo de muito semelhante ao que se passa com Zaqueu. A construção da personagem do bom samaritano colhe-se dos dois modos de construção, mas essencialmente do showing: compadeceu-se do que caíra entre ladrões e jazia ferido; tratou-lhe as feridas; levou-o a um lugar onde pudessem continuar a cuidar dele; pagou por antecipação a despesa a fazer com os cuidados ao ferido; comprometeu-se a pagar a maior despesa ainda que tivesse que ser feita. No essencial a construção é em showing. E a circunstância de parte da construção conter também palavras do bom samaritano, ainda que reproduzidas por Jesus (v 35), não retira aquela essencialidade do showing introduzindo, contudo, uma componente de telling.

Método bíblico-teresiano


Hoje, dia de Santa Teresa do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja, sugiro lerem o artigo do «método bíblico-teresiano» no website http://www.teresinha.com/sagradaescritura.html.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

S. Jerónimo






São Jerónimo, Padre da Igreja e tradutor da Biblia dos LXX para a Vulgata (edição Latina), comentou muitos textos bíblicos. Para ele os comentários devem oferecer numerosas opiniões, "de modo que o leitor cauteloso, depois de ter lido as diversas explicações e conhecido numerosas opiniões para aceitar ou rejeitar julgue qual seja a mais fidedigna e, como um perito de câmbios, rejeite a moeda falsa" (Contra Rufinum 1, 16).

Relato e Sequência

Relato:

Lc 11, 9-13
«Digo-vos, pois: Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á. Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!

Micro relatos:

Lc 22, 54 Apoderando-se, então, de Jesus, levaram-no e introduziram-no em casa do Sumo Sacerdote.

Lc 22, 58 Pouco depois, disse outro, ao vê-lo: «Tu também és dos tais.» Mas Pedro disse: «Homem, não sou.»

Lc 22, 61 Voltando-se, o Senhor fixou os olhos em Pedro


Sequência:

Lc 22, 47 a Lc 23, 42
Esta sequência vai desde a prisão de Jesus até à sua chagada ao Calvário.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sequência narrativa e micro-relatos

Sequência narrativa

Mt 8-10
Estes dois capítulos constituem uma sequência narrativa. Inicia-se com a indicação espacial ("Ao descer da montanha"), que informa simultaneamente o leitor de que se trata de uma nova situação espácio-temporal. Se os capítulos anteriores apresentaram Jesus a discursar na montanha, esta sequência está centrada na pregação do Reino dos Céus: narra uma série de milagres e / ou curas (10), intercalado com alguns ensinamentos aos discípulos (Mt 8, 18-22), narra o chamamento de Mateus (Mt 9, 9), entre outras peripécias, todas ligadas pela centralidade de Jesus e a mensagem que pretende veicular.
A sequência é ainda marcada pela constante mudança espacial e de personagens. O final desta sequência como que resume a acção de Jesus narrada nestes capítulos (Mt 9, 35). Se os versículos precedentes à sequência falavam do espanto da multidão perante a actividade de Jesus, vemos agora o próprio Jesus com um olhar compassivo perante o cansaço e abatimento dessas mesmas multidões (Mt 9, 36).
No capítulo 10, mudam os personagens, os Apóstolos passam a ser os principais destinatários, e passamos de uma narrativa sequencial para um discurso apostólico.


Micro-relato

Mt 8,
16-17
16Ao entardecer, apresentaram-lhe muitos possessos; e Ele, com a sua palavra, expulsou os espíritos e curou todos os que estavam doentes, 17para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores.

Este micro-relato está inserido numa sequência narrativa, e difere de outros micro-relatos pela mudança de personagens, mas igualmente pela indicação temporal que situa a acção num contexto diferente da cura da sogra de Pedro.

S. Cirilio

"Aprendei também diligentemente da Igreja quais são os livros do Antigo Testamento e quais os do Novo" (S. Cirilio, Leituras Catequéticas, 4,33).

Evangelho Canónico





“Se alguém se apresentar com um Evangelho diferente daquele que a Igreja católica recebeu dos Santos Apóstolos, dos Padres e dos Concílios e que ela conservou até aos nossos dias, não o escuteis”
(S. João Damasceno, Discurso sobre as imagens III, 3, em: PG 94, 1320-1321)

O que são os evangelhos canónicos e o que são os apócrifos? Quais e quantos são?

O que são os evangelhos canónicos e o que são os apócrifos? Quais e quantos são?


Gonzalo Aranda

Evangelhos canónicos são os que a Igreja reconheceu como sendo aqueles que transmitem autenticamente a tradição apostólica e estão inspirados por Deus. São quatro e só quatro: Mateus, Marcos, Lucas e João. Assim o propôs expressamente Santo Ireneu de Leão nos finais do séc. II (Adversus Haereses 3.11.8-9) e assim o tem mantido constante­mente a Igreja, propondo-o finalmente como dogma de fé ao definir o cânone das Sagradas Escrituras no Concílio de Trento (1545-1563).

A composição destes evangelhos tem as suas raízes no que os apóstolos viram e ouviram estando com Jesus, e nas aparições que tiveram dele depois de ressuscitar de entre os mortos. Logo a seguir os mesmos apóstolos, cumprindo o mandato do Senhor, pregaram a boa notícia (ou evangelho) acerca d’Ele e acerca da salvação que Ele traz a todos os homens, e foram-se formando comunidades de cristãos na Palestina e fora dela (Antioquia, cidades da Ásia Menor, Roma, etc.). Nestas comunidades as tradições foram tomando forma de relatos ou de ensinamentos acerca de Jesus, sempre sob a tutela dos apóstolos que tinham sido testemunhas. Num terceiro momento essas tradições foram postas por escrito integrando-as numa narração em forma de biografia do Senhor. Assim surgiram os evangelhos para uso das comunidades às quais estavam destinados. O primeiro, segundo parece, terá sido Marcos ou talvez uma edição de Mateus, em hebraico ou aramaico, mais breve que a actual. Os outros três imitaram o género literário deste. Neste trabalho, cada evangelista escolheu algumas coisas das muitas que se transmitiam, sintetizou outras e apresentou tudo atendendo à condição dos seus leitores imediatos. Que os quatro gozaram da garantia apostólica vê-se no facto de terem sido recebidos e transmitidos como escritos pelos próprios apóstolos ou por discípulos directos dos mesmos: Marcos foi discípulo de São Pedro e Lucas de São Paulo.

Os evangelhos apócrifos são os que a Igreja não aceitou como conservando autêntica tradição apostólica, embora normalmente fossem apresentados sob o nome de algum apóstolo. Começaram a circular muito cedo, pois já são citados na segunda metade do séc. II, mas não gozavam da garantia apostólica como os quatro reconhecidos e, além disso, muitos deles continham doutrinas que não estavam de acordo com o ensino apostólico. “Apócrifo” começou por significar “segredo” por fazer referência a escritos que se dirigiam a um grupo especial de iniciados e serem conservados nesse grupo. Mais tarde passou a significar inautêntico e inclusivamente herético. À medida que passou o tempo o número desses apócrifos cresceu em grande número, quer para dar pormenores da vida de Jesus que não davam os evangelhos canónicos (por exemplo os apócrifos da infância de Jesus), quer para pôr sob o nome de algum apóstolo ensinamentos divergentes das que eram comuns na Igreja (por exemplo o evangelho de Tomé). Orígenes de Alexandria (+ 245) escrevia: “A Igreja tem quatro evangelhos, os hereges, muitíssimos”.

Entre as informações dos Padres da Igreja, os que conservou a piedade cristã, e os testemunhados de um modo ou outro em papiros, o número de “evangelhos apócrifos” conhecidos é pouco superior a cinquenta.



Bibliografia: V. Balaguer (ed.), Comprender los evangelios, Eunsa, Pamplona 2005; A. de Santos, Los evangelios apócrifos, BAC, Madrid 1993 (8ª ed.); F. Varo, ¿Sabes leer la Biblia?, Planeta, Barcelona 2006.

Lc 22 - 23 (Macro-relatos e Micro-relatos)


EVANGELHO DE S. LUCAS

Imagem de S. Lucas

GRANDE MACRO-RELATO


Ø Todo o episódio da Paixão, morte e ressurreição de Jesus

o Lc 22 – 23

§ muda-se várias coisa (personagens, cenários, espaços, tempo, etc… mas o tema central é só um CUMPIRIR O PLANO que une todos os micro relatos

§ contudo também existe uma união de micro-relatos que precedem este grande micro-relato que iremos analisar.


MICRO-RELATOS


o Antes de Lc 22 -> Jesus caminha até Jerusalém [Jesus vai, voluntariamentente, até ao local onde está a ser elaborado o plano e onde se vai realizar, futuramente.

o Entre Lc 22 até Lc 23:

Micro relatos (onde há um fio condutor entre todos os episódicos)

Citação

Assunto

Fio\ tema

Lc 22, 1-6

Conspiração dos judeus e de Judas

Plano «oculto» que está a decorrer

Lc 22, 7-13

Preparação da Ceia Pascal

Preparar Ceia (local por excelência do anúncio do plano)

Lc 22, 14-20

Ultima ceia

Ceia onde Cristo faz a Nova Aliança

Lc 22, 21-23

Anúncio da traição de judas

primeiro anúncio do plano

Lc 22, 24-30

Jesus fala sobre o poder e serviço dos apóstolos

Como ser apóstolos? (Jesus prepara-se para partir e dá-lhes uma lição de humildade, ou seja, como «governar» sem o mestre)

Lc 22, 31 -34

Anúncio das negações de Pedro

Anúncio da infidelidade do apóstolo e a segundo anuncio do plano

Lc 22, 35-38

Missão apóstolos: «Ficar alerta»

terceiro anúncio do plano

Lc 22, 39-44

Oração de Jesus no Monte das Oliveiras

Jesus dá-se conta da eminência do plano e os discípulos dormem (não acreditam no plano)

Lc 22, 45-53

Prisão de Jesus

Primeira parte do plano realiza-se, ou seja, prender Jesus.

Lc 22, 54-62

Três negações de Pedro

Pedro relembra-se do plano que Jesus tinha anunciado durante a ceia e sente vergonha por isso.

Lc 22, 63-65

Condenação

Plano que decorre e busca-se razões para o fundamentar

Lc 22, 66-71

Tribunal judaico

Lc 23, 1-5

Tribunal romano (Pilatos)

Lc 23, 6-12

Tribunal romano (Herodes)

Lc 23, 13-25

Jesus julgado pela multidão (liberta-se Barrabás)

Plano aprovado não por via «jurídica», mas pela decisão da multidão.

Lc 23, 26-32

A caminho do Calvário e Simão de Cirene que ajuda Jesus

«grande multidão de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele» à Parte da Multidão arrepende-se da decisão do plano

Lc 23, 33-43

Jesus crucificado e escarnecido

Plano realiza-se conforme tinha sido planeado

Lc 24, 44-49

Morte de Jesus

Plano consuma-se com a morte

Lc 24, 50-56

Sepultura de Jesus






A partir de Lc 24 – Plano, que tinha que acabar com a morte, altera-se porque parece que Jesus ressuscitou [Evangelho de Lucas] e os discípulos continuam a seguir e anunciar os seus ensinamentos [Actos dos Apóstolos].

Padres da Igreja e a Sagrada Escritura (Novo Testamento)

Padres da Igreja e a Sagrada Escritura (Novo Testamento)


Jerónimo ressaltava a alegria e a importância de se familiarizar com os textos bíblicos: "Não te parece habitar já aqui na terra no reino dos céus, quando se vive entre estes textos, quando os meditamos, quando não se conhece e não se procura nada mais?" (Ep. 53, 10). Na realidade, dialogar com Deus, com a sua Palavra, é num certo sentido presença do Céu, isto é, presença de Deus. Aproximar-se dos textos bíblicos, sobretudo do Novo Testamento, é essencial para o crente, porque "ignorar a Escritura é ignorar Cristo".

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

As personagens

MARCOS 2, 1-12

Cura de um paralítico. Perdão dos pecados.
1Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. 2Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. 3Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. 4Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. 5Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.» 6Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: 7«Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» 8Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? 9Que são mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? 10Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, 11Eu te ordeno - disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» 12Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

• Neste texto temos como personagens individuais , Jesus e o paralítico, nos versículos: 1, 2, 4, 6 e 7.
• Como pessoas colectivas: os que apresentam o paralítico, os doutores da lei e a multidão, nos versículos 2, 3 e 8.
• Os protagonistas são Jesus e o paralítico.
• A personagem principal é Jesus.
• As personagens secundários a multidão.
• Personagens Redondas: Jesus e o paralítico.
• Personagens planas: Os doutores da lei e a multidão.
• O Emissor: narrador
• O Destinatário: leitor
• O Sujeito: Jesus
• O Objecto: o paralítico
• Os Oponentes: os doutores da lei
• O Adjuvante: Os que apresentaram um paralítico deitado num catre.

• Estas personagens tornam-se inesquecíveis pelo facto de existir uma empatia e uma antipatia.

Verificamos uma empatia entre Jesus, os que apresentam o paralítico e o próprio paralítico.
A antipatia está presente nos doutores da lei.

O desenvolvimento do 'telling' e 'showing' em Jesus de Nazaré

Lucas 4,31-37

31-34 
Desceu, depois, a Cafarnaúm, cidade da Galileia, e a todos ensinava ao sábado. E estavam maravilhados com o seu ensino, porque falava com autoridade. Encontrava-se na sinagoga um homem que tinha um espírito demoníaco, o qual se pôs a bradar em alta voz: «Ah! Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus!» 

Aqui temos  a descrição do que dizem os outros e do que dizem os demónios que reconhecem Jesus de Nazaré.

35-37
Jesus ordenou-lhe: «Cala-te e sai desse homem!» O demónio, arremessando o homem para o meio da assistência, saiu dele sem lhe fazer mal algum. Dominados pelo espanto, diziam uns aos outros: «Que palavra é esta? Ordena com autoridade e poder aos espíritos malignos, e eles saem!»  A sua fama espalhou-se por todos os lugares daquela região.


Estamos perante a palavra proferida por Jesus e o seu poder que age imediatamente. Pela palavra, Jesus actua e deste modo, cura aquele endemoninhado.  

Um micro-relato e uma sequência


Micro-relato


Mateus 2, 19-23

Morto Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.» Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel. Porém, tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá. Advertido em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré; assim se cumpriu o que foi anunciado pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.

A escolha deste micro-relato tem por base: a personagem, a intriga/enredo, espaço e género literário.


Sequência de micro-narrativas

Mateus 4

  • 4,1-11 - Tentações no deserto;
  • 4,12-17 - Início da pregação pública de Jesus;
  • 4,18-22 - Chamamento dos discípulos;
  • 4,23-25 - Primeiro impacto de Jesus com a multidão que O seguia;
A sequência que aqui se apresenta refere-se ao início do ministério público de Jesus, sendo que temos antes das referências à pregação em si, as tentações que nos permitirão consolidar o personagem e a intriga que se irá desenrolar - Jesus, Filho de Deus, que ultrapassa todas as provas demoníacas, é aquele que vem para nos anunciar uma nova Mensagem.



Lc 8, 22-56: uma pluralidade de micro-relatos; uma sequência narrativa

I - Micro-relatos:



1 - vs 22-25: Jesus acalma a tempestade.

2 - vs 26-39: a cura do endemoninhado geraseno.

3 - vs 40-42 e 49-56: a cura (ressurreição?) da filha de Jairo.

4 - No interior deste terceiro relato, ainda um outro: a cura da hemorroíssa (vs. 43-48).

Com efeito, em cada um destes relatos encontramos os critérios distintivos de uma micro-unidade: tempo, espaço, personagens, tema e género-literário. Vejamos, por exemplo, o micro-relato de vs 22-25: o espaço é o lago, ambiente próprio das grandes extensões de água e os fenómenos naturais que normalmente aí se desenrolam; o tempo é o da travessia; os personagens são Jesus e os seus discípulos; o tema é o poder de Jesus, aqui exemplificado no domínio da tempestade.

Na cura do endemoninhado é outro o espaço e outro o tempo. Mantem-se o género literário. As personagens não são as mesmas pois que outra surge e é aqui importante: o geraseno. O tema persiste: o poder de Jesus, mas agora exemplificado na expulsão dos demónios. Presente, portanto, a maioria dos critérios distintivos.

O que venho dizendo torno-o extensível, mutatis mutandis, aos micro-relatos de vs. 40-56.


II - Sequência narrativa:


Do princípio ao fim, sempre a figura tutelar de Jesus, o exercício dos seus poderes, os seus habituais acompanhantes, isto é, os discípulos. Depois, uma certa continuidade do tempo - um dia, segundo parece - como que um sair de manhã e voltar à tarde, depois de uma jornada de trabalho.A própria natureza das acções desenvolvidas por Jesus (acção sobre os elementos e curas). Mesmo o espaço não deixa de ter aqui um certo cariz de complementação: um fazer e desfazer caminho, um ir e voltar. Tudo isto estabelece uma cadeia, senão rede, de ligações entre os apontados micro-relatos, uma continuidade narrativa que justifica a inclusão de todos numa sequência narrativa.




















Modalidades de acção

Modalidades de acção
A acção apresenta diferentes modalidades tais como: dever; querer; poder e saber estabelecendo um elo de ligação quase permanente com o verbo fazer (verbo que marca profundamente o protagonista). Deste modo o único capaz de fazer este elo de ligação é Jesus.

Exemplo de modalidades de acção em Marcos 7, 31-37 – “Cura de um surdo-mudo”.

31Tornando a sair da região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele.

• Os habitantes daquela região sabiam que era “dever” de Jesus curar aquele homem. Eles trazem o homem até Jesus porque têm fé, mas não têm poder de curar.

33Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. 34Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» 35Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente.

• O querer, o poder e o fazer de Jesus faz com que o homem seja curado. Jesus suspira e acontece nesse mesmo momento.

36Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam.37No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

 Neste texto estamos de facto perante uma personagem (Jesus), que realiza as modalidades de acção completas.

Um Micro Relato e uma Sequência nos Evangelhos Sinópticos

Micro Relato: Mc 8, 31-37 – Cura de um surdo-mudo

Sequência: Mc 7, 24 – 10, 52 – Viagens por Tiro, Sídon e Decápole

Cinco momentos Aristotélicos num passo dos Sinópticos

Mc 1, 40-44
1. Situação inicial
“Um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou:”

2. Enlace
“«Se quiseres, podes purificar-me.»”

3. Transformação
“Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.»”

4. Desenlace
“Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado.”

5. Situação final
“E logo o despediu, dizendo-lhe em tom severo: «Livra-te de falar disto a alguém; vai, antes, mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que foi estabelecido por Moisés, a fim de lhes servir de testemunho.»”

Exemplo de um micro relato e de uma sequência

Micro relato:

Mt 4, 18-20

18Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 19Disse-lhes: «Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens.» 20E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no.

Sequência:

Mt 4, 18-22

18Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. 19Disse-lhes: «Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens.» 20E eles deixaram as redes imediatamente e seguiram-no. 21Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, os quais, com seu pai, Zebedeu, consertavam as redes, dentro do barco. Chamou-os, e 22eles, deixando no mesmo instante o barco e o pai, seguiram-no.

Sinopse de Mc 6, 45-53 e Mt 14, 22-34


Mc 6, 45-53

Situação inicial
45Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, para o outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. 46Depois de os ter despedido, foi orar para o monte.

Enlace
47Era já noite, o barco estava no meio do mar e Ele sozinho em terra. 48Vendo-os cansados de remar, porque o vento lhes era contrário, foi ter com eles de madrugada, andando sobre o mar; e fez menção de passar adiante. 49Mas, vendo-o andar sobre o mar, julgaram que fosse um fantasma e começaram a gritar, 50pois todos o viram e se assustaram.

Transformação
Mas Ele logo lhes falou: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!» 51A seguir, subiu para o barco, para junto deles, e o vento amainou.

Desenlace
E sentiram um enorme espanto, 52pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido.

Situação final
53Finda a travessia, aproximaram-se de Genesaré e aportaram.


Mt 14, 22-34

Situação inicial
22Depois, Jesus obrigou os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. 23Logo que as despediu, subiu a um monte para orar na solidão. E, chegada a noite, estava ali só.

Enlace
24O barco encontrava-se já a várias centenas de metros da terra, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. 25De madrugada, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. 26Ao verem-no caminhar sobre o mar, os discípulos assustaram-se e disseram: «É um fantasma!» E gritaram com medo.

Transformação
27No mesmo instante, Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» 28Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» 29«Vem» - disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!» 31Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» 32E, quando entraram no barco, o vento amainou.

Desenlace
3Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!»

Situação final
34Após a travessia, pisaram terra em Genesaré.

domingo, 27 de setembro de 2009

Sequência e micro-relato

Sequência de micro-relatos – Lc 5


Lc 5, 1-11

Pesca milagrosa e chamamento dos primeiros discípulos

Lc 5, 12-16

Cura de um leproso

Lc 5, 13-26

Cura de um paralítico

Lc 5, 27-32

Chamamento de Levi

Estamos perante uma sequência de micro-relatos. Apesar de não conterem todos os mesmos personagens nem se passarem todos no mesmo sítio, os fios que ligam estes micro-relatos numa sequência são os temas e a presença essencial de Jesus. Temas que se entrecruzam como numa malha: Um milagre que antecede o chamamento dos primeiros discípulos; a cura milagrosa de um leproso; a cura milagrosa de um paralítico e o chamamaneto de outro discípulo. Esta mescla de milagres e chamamento revela a atitude de Jesus que mudava a vida daqueles com quem se cruzava.

Micro-relato Lc 6, 12-16

Eleição dos Doze

12Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer oração e passou a noite a orar a Deus. 13Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: 14Simão, a quem chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago, João, Filipe e Bartolomeu; 15Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelote; 16Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.



Duarte Andrade e Sousa