sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Jesus e as parábolas do Reino

Tanto o Antigo como o Novo Testamento se servem de formas literárias que têm a ver com o figurativo e não propriamente com a ordem conceptual. A literatura bíblica é estruturalmente imagética e figurativa e por isso mesmo usa muitas formas literárias: o mito, a saga, o romance, a hipérbole, a metáfora, a alegoria, a parábola, etc…
Na sua pregação sobre a soberania de Deus, Jesus anunciou o Reino e falou dele utilizando as parábolas. O Filho da Galileia “revestiu os seus pensamentos com as vestes da terra natal e conduziu com mão segura os seus fiéis do conhecido para o desconhecido, do mundo dos sentidos para o Reino dos Céus”1. Na verdade, na medida em que as parábolas apresentam aquilo que é conhecido, mesmo o quotidiano, colocam diante dos nossos olhos a vida das pessoas simples daquele tempo. A história cheia de vida que cativa o ouvinte, a imagem que continua a fascinar o leitor que a ela se abre, mas que se transcende a si própria, apontando para a soberania de Deus, permite que esta seja compreensível e que a sua presença seja sentida.

1- Joachim GNILKA, Jesus de Nazaré. Mensagem e história, Lisboa, Editorial Presença, 1999, p. 86.

PROLEPSES E ANALEPSE NO EVANGELHO DE S. MARCOS

EXEMPLO DE PROLEPSE NO ENVANGELHO SÃO MARCOS

Marcos 8,31-32
“31Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dias. 32E dizia claramente estas coisas. Pedro, desviando-se com Ele um pouco, começou a repreendê-lo.”

Marcos 10,32-34
“32Iam a caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus seguia à frente deles. Estavam espantados, e os que seguiam estavam cheios de medo. Tomando de novo os Doze consigo, começou a dizer-lhes o que lhe ia acontecer: 33«Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei, e eles vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios. 34E hão-de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas, três dias depois, ressuscitará.»”


EXEMPLOS DE ANALEPSE NO ENVANGELHO SÃO MARCOS

Marcos 2,23-26
“23Ora num dia de sábado, indo Jesus através das searas, os discípulos puseram-se a colher espigas pelo caminho. 24Os fariseus diziam-lhe: «Repara! Porque fazem eles ao sábado o que não é permitido?» 25Ele disse: «Nunca lestes o que fez David, quando teve necessidade e sentiu fome, ele e os que estavam com ele? 26Como entrou na casa de Deus, ao tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu os pães da oferenda, que apenas aos sacerdotes era permitido comer, e também os deu aos que estavam com ele?»”

Marcos 7,6-10
“6Respondeu: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos. 8Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.» 9E acrescentou: «Anulais a vosso bel-prazer o mandamento de Deus, para observardes a vossa tradição. 10Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e ainda: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte.”

Uma leitura breve do Evangelho de S. Mateus

Evangelho de São Mateus

Quando lemos o Evangelho de Mateus, apercebemo-nos que o autor apresenta um estilo diferente dos outros evangelhos. Mateus é um teólogo que faz uma síntese da mensagem vivida na sua comunidade e proclama essa mensagem a própria comunidade. O seu estilo e processo de composição é de influência semítica pelas expressões utilizadas ao longo do Evangelho, tais como: “a lei e os profetas”; “Reino dos Céus”; “Meu Pai que está nos Céus”; “cumprir a lei”. Este semitismo que nós encontramos deve-se as fontes do Evangelho, na qual o autor permaneceu fiel, a linguagem primitiva que encontro. Na própria composição do texto encontramos repetições, refrães, e inclusões com a finalidade de retomar o inicio de um discurso, que desde logo podemos confirmar em (Mt 5,3 e 10), quando nos diz: “porque deles é o reino dos céus”. Percebemos que é um Evangelho de uma moral, e de uma grande ética, que nos coloca perante uma exigência, tudo isso contido na grande proposta de Jesus.
Um aspecto importante que é apresentado é a Genealogia, que somente encontramos neste Evangelho e em Lucas, contudo apresentando diferenças. Em Mateus começamos com Abraão e Lucas começa com José, assim como em Mateus temos uma relação de Jesus com Israel em Lucas temos um Jesus mais direccionado para o povo. Desta feita temos apenas duas coisas iguais em Mateus e Lucas, que são: Jesus nasceu em Belém e Jesus que nasceu de uma virgem,
de resto dentro dos evangelhos da infância, tudo é diferente. O Evangelho da infância é uma meditação desnsamente teológica que antecede os títulos de Jesus.
Outro aspecto importante é que Evangelho de Mateus é sempre Deus através do Anjo que diz a José. No Sonho o Anjo diz “José, Filho de David”, pois neste Evangelho é sempre da descendência de David, porque os destinatários são os judeus. Por isso Jesus é da descendência de David.
Deste modo podemos dizer que o Evangelho da infância de Mateus é a realização das profecias. Todo o relato dá-nos um Messias total, pois vem de uma Virgem, vem de Belém, é um consagrado, vem da raiz de Jessé. Tudo isto para significar que Jesus tem em si tudo o que é anunciado no Novo Testamento.

A geografia que o Evangelho nos apresenta tem um carácter teológico, pois pretende desde logo nos dizer algo sobre Jesus. A própria terra de Jesus é muitas vezes associada à Galileia dos pagãos, algo que a primeira vista nos parece contraditório. Porém chama a atenção para uma esperança escatológica, que já esta presente no Antigo Testamento, em (Isaías 8, 23), que nos anunciou, que seria na Galileia que Deus se manifestaria aos pagãos. De certa forma também nos parece contraditório quando vemos Jesus comer com os pagãos.
A sua permanência na Galileia é algo que nos chama a atenção no Evangelho de Mateus, pois encontramos apenas Jesus a deslocar-se duas vezes: uma para ir receber o baptismo de João Baptista e a outra quando vai a caminho de Jerusalém, onde sofrerá a sua morte e paixão. Também notamos ainda que Mateus é o único evangelista que situa a manifestação do ressuscitado na Galileia. Deste modo podemos associar a figura de Jesus a Moisés, sem esquecer que Jesus é superior a Moisés, porque este morreu no deserto sem conhecer a terra. Se olharmos à figura de Jesus, este atravessou o deserto da morte e terminado o seu cativeiro vai regressar à sua terra, à Galileia, onde vai conceber aos onze discípulos uma missão “ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…” (Mt 28,19). Deste modo, Mateus reconhece em Jesus o novo Moisés (por isso o primeiro discurso é feito no monte) e procura fazer sentir que Ele traz consigo um mistério, muito maior que o leitor possa imaginar.
O tema do discipulado no Evangelho de Mateus é constante, onde encontramos o verbo com um sentido imperativo a indicar “fazei discípulos”(Mt 13,52; Mt 28,18). Se olharmos o Evangelho de Lucas, o mandato final é diferente do de Mateus, pois Jesus manda permanecer na cidade.
Porém encontramos a perícope principal em Mt 28, 16-20, que nos faz tocar no cerne, porque foi na Galileia que Jesus anunciou o Reino e as bem-aventuranças. Encontramos agora no monte a voz do Senhor ressuscitado e glorioso.