sábado, 12 de dezembro de 2009

Breve leitura do Evangelho de Lucas

Quando fazemos uma leitura do Evangelho de Lucas apercebemo-nos que ele é dedicado a Teófilo, referência que nos é dada no prólogo, mas é sobretudo um evangelho destinado a toda a cultura Helenista da época onde o Teófilo é todo aquele que se considera o amigo de Deus.
Na abertura do evangelho damo-nos conta que Lucas tem um projecto para o leitor, pela forma cuidada e pela elegância no contar da história. Não é um algo escrito ao acaso, mas uma narrativa com um investimento teológico e narrativo, com uma finalidade estreitamente catequética para podermos ver quem é Jesus.
O evangelho de Lucas além de ter um objectivo, valoriza e da uma atenção especial face ao encontro (de Jesus com os seus discípulos e com as pessoas com quem se vai cruzando no caminho), face a palavra (de Jesus que é eficaz), face a casa (onde Jesus muitas vezes escolhe como lugar de encontro) e face a mesa (lugar que demarca a personagem de Jesus, que come com justos e pecadores). Porém de todas estas palavras que têm uma enorme relevância ao longo do evangelho, a mais destacada é a palavra “casa”, que aparece 69 vezes em diferentes contextos da acção de Jesus.
Apesar de a narrativa começar no templo e acabar no templo com os discípulos, Lucas escolhe de faço a casa como espaço principal da narrativa. A última vez que encontrámos Jesus é precisamente numa casa, a casa de Emaus (Lc 24,29). O autor percebe que o espaço mais favorável para apresentar Jesus é a casa, sendo o lugar por excelência, onde contém a mesa e por sua vez proporciona o encontro para a refeição. A comida é algo também importante que cria um pacto. O verbo comer aparece-nos 17 vezes ao longo do evangelho, assim como o verbo beber nos aparece 6 vezes. Porém podemos vislumbrar já desde o início no Antigo Testamento, quando Moisés come diante de Deus.
O entrar na casa e reunir-se à mesa é muito importante, pois é a partir deste gesto que Jesus vai usar como estratégia para se revelar, tanto aos discípulos, como aos pecadores que vai curando. Deste modo podemos encontrar 15 vezes a palavra mesa, que nos conduz aos momentos de relação de Jesus.
Deste modo podemos chegar a conclusão que no evangelho de Lucas está presente uma teologia da refeição, onde muitas vezes Jesus é “famoso” por comer e beber.
Deste modo leva-nos a reflectir o momento em que Jesus se dá a conhecer, quando faz a fracção do pão. É de facto um momento alto do banquete, que não o podemos compreender se não entendermos todos os outros momentos em que Jesus esteve a mesa.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sinopse dos Milagres de Jesus nos Evangelhos Sinópticos

Milagres presentes nos três Evangelhos:

Cura da sogra de Pedro
Mc 1, 29-31; Mt 8, 14-15; Lc 4, 38-39
Várias curas e exorcismos ao anoitecer
Mc 1, 32-39; Mt 8, 16; Lc 4, 40-41
Cura de um leproso
Mc 1, 40-45; Mt 8, 1-4; Lc 5, 12-16
Cura de um paralítico
Mc 2, 1-12; Mt 9, 1-8; Lc 5, 17-26
Cura de um homem com a mão atrofiada
Mc 3, 1-6; Mt 12, 9-14; Lc 6, 6-11
Curas variadas
Mc 3, 7-12; Mt 12, 15-16; Lc 6, 17-19
Jesus acalma a tempestade
Mc 4, 35-41; Mt 8, 18.23-27; Lc 8, 22-25
Exorcismo duma legião de espíritos impuros
Mc 5, 1-20; Mt 8, 28-34; Lc 8, 26-39
Cura da hemorroísa e ressurreição da filha de Jairo
Mc 5, 21-43; Mt 9, 18-26; Lc 8, 40-56
Cura de um menino possesso surdo-mudo
Mc 9, 14-29; Mt 17, 14-21; Lc 9, 37-42

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mateus, o Evangelho da Igreja

Este exercício de resumir qualquer evangelho em palavras pessoais após a leitura é muito difícil. Porém, quando comecei a ler Mateus notei que até se conseguem “tirar notas”, como se de uma aula de teologia se trata-se. Aqui ficam algumas (resumidas) considerações que fui formulando a partir das leituras de este Evangelho de S. Mateus.
Desde logo notei que é o primeiro Livro do NT e mais longo dos quatro evangelhos. Também me pareceu que quase em que cada virgula encontra eco no AT. Em refere-se inúmeras vezes o tema do realizar-se, o realizar-se do Antigo Testamento. Impressionou-me ainda o facto de se dar tanta importância a S. José. Ora, estas minhas perplexidades foram objecto de estudo nas aulas e agora já compreendo melhor o seu porquê.
Outra das coisas que me toucou foi o facto de este Evangelho procurar dizer-nos do acontecimento um ponto de viragem crucial na história. Este ponto de viragem é o realizar-se, de forma dramática, das profecias e anseios do AT na pessoas de Jesus. Será talvez por isso que temos toda a história de Jesus, desde o seu miraculoso nascimento; o seu ensinamento que pela sua autoridade supera de longe qualquer rabino seu contemporâneo; temos os milagres que transcendem qualquer curandeiro. Somos introduzidos À Pessoa que é A Pessoa chave da história. O reconhecimento de Jesus como Emanuel é justificado por tudo e por todos. Neste sentido um dos exercícios que tentei fazer foi procurar os títulos de Jesus em Mt. Encontrei: Todo Poderoso (cf. Mt 28, 18); Esposo (9, 15); Emanuel (1, 23); Rei dos Judeus (27, 11); Mestre, catorze vezes – embora traduzindo pelo menos dois termos diferentes a partir dos casos que comparei, Rabbi e Didaskalós (aparece catorze vezes na versão portuguesa referida); Filho do Homem (vinte e nove vezes). Certamente haverão mais, este foram os que encontrei assim mais explícitos.
Não sei se correctamente, mas oferece-me dizer que o Cristo de Marcos é cósmico e atrai o universo no seu todo a Si num movimento centrípeto de aproximação contínua. Tudo isto se inscreve, parece-nos, num segundo nível, o que Mateus chama repetidas vezes os Reino do Céu (32 vezes na bíblia dos Capuchinhos, ed. de 2001). Isto designará a gramática de uma nova relação que se estabelece entre o ser humano e Deus. Jesus apresenta nesta nova gramática relacional um caminho inaudito: Ele cura e opera milagres, mas vai muito além disso, Ele morre para espiar (se assim podemos dizer) os pecados humanos.
A mim também me chamou à atenção o facto de uma “primeira parte” de Mt não haver espaço para dúvidas: os discípulos estão “despertos” e deixam logo tudo e seguem Jesus. À medida que caminhamos para o trágico final de Jesus eles vão “adormecendo”. Eu perguntava-me quando lia: como é que Pedro e os outros, que ao princípio deixavam “imediatamente” tudo (4, 20ss), depois adormecem e negam Jesus em momentos cruciais (26, 14-16; 26, 40- 46; 27, 69-75)?
Estranhei também ao ler Mateus a sugestão que (mais ao menos a meio do Evangelho fica clara) Jesus não veio primeiramente para ensinar e curar mas para morrer… De repente, este Evangelho parece tornar-se uma narrativa da paixão com uma extensa introdução…
Outro, e por último, dos elementos a que me tornei sensível na leitura foi a menção da “fé” como critério de possibilidade: os de pouca fé encontram dificuldades em entender e em esperar mudança; por outro lado ao que tem fé tudo é possível (cf. 6, 30; 8, 10; 8, 13; 8, 26; 9,2; 9,22; 9, 29; 13, 58; 14, 31; 15, 28; 16, 8; 17, 20 e 21, 21-22).
Concluindo só escrever que no transporte deste Evangelho para o século XXI eu noto um “overlap” (sobreposição) das questões de fundo do ser humano: as esperanças, os medos, as frustrações, a realidade do sofrimento, a realidade da morte… O Deus que envia Jesus responde a estas questões, e essas respostas estão no Evangelho de Mateus. E Evangelho da Igreja porqu: porque a meu ver a ensina, a encoraja, lhe dá Esperança (além de mencionar duas vezes a palavra Igreja: 16, 18 e 18,17).

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Evangelho segundo S. Lucas

O Evangelho segundo S. Lucas (Lc) é redigido e destina-se ao grande público do mundo cultural helénico. Por um lado usa um grego evoluído e sofisticado; por outro lado, passa ao lado das (intermináveis) discussões e polémicas com que a sociedade hebraica se debatia à época. Pelo meio, o autor demonstra um espírito de aolhimento e consideração pelos gentios.
O Evangelho constitui a primeira parte da obra lucana, sendo a segunda constituída pelo livro dos Actos dos Apóstolos. Nesta divisão da sua obra, o autor distingue bem dois tempos históricos e teológicos: o tempo de Jesus (Evangelho) e o tempo da Igreja (Actos).
Lc usa materiais comuns a Mc e Mt, mas nele se podem encontrar parábolas e acontecimentos particulares, de que constituem exemplos a parábola do filho pródigo, assim como a aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús. Concretamente, no caso da parábola do filho pródigo, fica bem sublinhado o carácter da misericórdia de Deus, o que le
va alguns autores a considearrem Lc como o "Evangelho da misericórdia".
Ressalta também em Lc a importância teológica de Maria, mãe de Jesus, no cristianismo embrionário, paradigmaticamente expresso no célebre cântico do "Magnificat" (Lc 1, 46-55).
Numa demonstração da influência literária helénica em Lc, não podemos deixar de referir o uso generosos que o autor faz do género literário grego do simpósio. Assim se explica a valorização da refeição / mesa como lugar de encontro, de acolhimento, de respeito, de diálogo e descoberta do outro, sem prejuízo do tratamento teológico especificamente cristão que Lc dará à mesa, sobretudo como lugar de encontro com Jesus. Associado à mesa surge também a casa. Pode-se, pois, dizer que Lc Jesus se revela primacialmente à mesa.
Na sua história da salvação, o autor lucano dará ainda grande relevo a Jerusalém, cidade na qual tod o evento pascal terá lugar.
Só para terminar, apenas uma breve indicação no concernente à datação desta obra. Segundo a melhor doutrina, julga-se que Lc terá sido redigido entre os anos 80-90 AD.

Evangelho segundo S. Mateus

O Evangelho segundo S. Mateus (Mt) é o Evangelho sinóptico mais extenso - com 28 capítulos - e caracteriza-se pela sua organização sistemática, de que são exemplo o conjunto de 5 discursos de Jesus, que por sua vez reúnem uma série de sentenças suas.
Verificamos que Mt tem igualmente uma preocupação histórica. Este facto, aliado à sua sistematicidade e clareza fizeram com que fosse "ab initio" o Evangelho por excelência; o mais utilizado pelas primeiras comunidades cristãs. De resto, foi sempre muito relevante a importância eclesiológica deste Evangelgo que, diga-se de passagem, é o único Evangelho em que podemos encontrar a palavra "ekklesia", mais concretamente temos dela 3 menções, a saber: Mt 16,18; 18,17. Assim, não é por acaso que Mt também é designado como o "Evangelho da Igreja".
O Evangelho terá sido escrito algures entre as décadas de 70 e 80, sendo dirigido a um público judaico. Por isso é que o autor chama constantemente a atenção para o facto de, em Jesus, se "cumprirem as Escrituras" e que por intermádio das suas palavras e obras tudo se realizar "em conformidade com as Escrituras". Claramente, procura convencer um público hebraico, conhecedor da Lei mosaica, dos profetas e dos demais livros sapienciais.
Além do mais, o período de redacção deste Evangelho explica o tom confrontacional e polémico em relação ao judaísmo farisaico. Com efeito, com a destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 AD, às mãos de Tito, o império romano esmagou aquela que seria conhecida como a primeira guerra judaica (à qual Flávio Josefo dedicará um dos sues livros). Com a destruição do templo, a classe sacerdotal - que se ocupava dos sacrifícios cruentos - desaparece, assim como o partido dos saduceus, classe sacerdotal donde provinham tradicionalmente as famílias dos sumos sacerdotes. É dizer, o judaísmo que se impõe é o judaísmo de tendência farisaica, com o centro religioso na sinagoga, algo que acentuou com o concílio de Jâmnia em finais do s. I AD.
Ora, o judaísmo farisaico era muito hostil ao cristianismo nascente. Assim, não espanta que Mt seja perpassado por uma veia anti-farisaica.
Outro elemento que não pode ser descurado em Mt prende-se com a eminente preocupação ética. Claro está, a ética das Bem-aventuranças - Mt 5-7 - é "critical". Trata-se de uma ética que se afigura bem mais profunda e exigente que a do Decálogo moral, de que são exemplos o apelo à misericórdia,`a mansidão, ao despendimento e ao perdão dos inimigos, tudo valores que passam desatendidos à ética do Decálogo (ainda que não a toda a ética veterotestamentária, na qual a "raham" [misericórdia] desempenha um papel muito importante).
A consciência de que Antiga Aliança chegara ao fim dos seus dias revela-se cristalina no mandato final de Jesus Cristo ressuscitado, quando Jesus exorta os Apóstolos a partirem em missão, fazendo discípulos de todos os povos (Mt 28, 16-20).