Lucas tem, como os outros evangelistas, uma maneira muito própria de apresentar Jesus. Em Marcos, Jesus não pára; em Mateus, Cristo aparce com sobriedade, exigente, numa grande tensão ética. Em Lucas temos uma visão catequética e pessoal de Jesus. É uma imensa catequese sobre Jesus. Mesmo que Lucas não tenha conhecido Jesus pessoalmente, e que é o mais provável, enquanto historiador e enquanto convertido, pretende dara conhecer a todos a Glória do Senhor ressuscitado.
Resumindo de forma sintética, o Evangelho de Lucas segue como os outros evangelhos, um plano definido pelo autor, e que concentra em si um objectivo, que se insere, como referido anteriormente, no sentido catequético. Para percebermos esse plano temos o capítulo 24, que neste texto se assume como uma chave hermenêutica. Neste capítulo temos desenhada a experiência pascal da comunidade cristã. Tal vivência comunitária faz-se como num dia: a Páscoa. Tudo é descrito como num dia. Depois, temos que a presença de Jesus dá-se de modo incisivo a personagens secundárias e não a personagens principais, pois a Páscoa é para todos.
Ao longo do texto evangélico percebemos que Lucas apresenta-se em três andamentos: o Encontro, a Palavra e a Casa/Mesa. O relato de Emaús é um micro-evangelho. Nós só percebemos este relato se tivermos presente a extensão do Evangelho. A mesa é lugar de encontro e de revelação, pois é nela que Jesus se revela. A alimentação em Lucas foi um campo semântico fundamental. Um campo semântico é um território de sentido. Os discípulos saem de Jerusalém e lá voltam. Eles encontram Jesus, pela Palavra faz arder o coração daqueles e é à mesa que se revela. Mais de 60% das narrativas deste Evangelho passam à mesa. Lucas quer escrever um Evangelho para todos. A língua franca universal era o grego e os modelos literários eam gregos. Lucas aproveita-os.
A mesa estabelece um pacto narrativo. A mesa é lugar de comunicação. À mesa não se sentam estranhos, e quando isso acontece dá-se para a integração. Comer não é um acto biológico, mas humano, antropológico. Lucas é um homem culto, que leu e sabe o que é contar uma história. Tem um projecto. A referência a Teófilo pode ser em relação a alguém, como pode ser em relação ao leitor – Teófilo (amigo de Deus).
Lucas conhece a literatura grega e quer traduzir Jesus. Valoriza a mesa e a casa. A mesa não é só a Última Ceia. O Evangelho começa no Templo e acaba no Templo. Parece que não aconteceu nada. Ligado à mesa temos a relação com as casas: a Casa de Jacob, a Casa de Zacarias, de entre outros.
Jesus não nasce na casa, mas num estábulo – na manjedoura. Tudo está construído por referir a manjedoura. A manjedoura é o lugar onde se alimentam os impuros. Jesus vai ser alimento para esses: amigo de publicanos e pecadores.
Secções:
1. Lc 1,1-4 - Prólogo
2. 1,5-4-13 – Infância e preparação do ministério de Jesus
3. Lc 4,14, 9-50 – Ministério de Jesus na Galileia
a) Lc 5 – Jesus está numa casa a curar
b) Lc 7 –Casa do centurião e do fariseu
c) Lc 8 – Casa implícita; Jesus vai até à casa de Jairo
4. Lc 9,51-19,27 – Envio dos 72 discípulos
a) Lc 10 – Jesus vai a casa de Marta e Maria
b) Lc 11 – Come com um fariseu
Etc…
5. Lc 19,28 – 21, 38 – Descreve o minstério de Jesus em Jerusalém
Lc 19,44: Ele não será reconhecido em Jerusalém – não há referência a casa e mesa
6. Paixão relatada entre Lc 22,1 e 23,56. Jesus é preso e intoduzdo na casa do Sumo-Sacerdote.
Lc 7,36-37 – ver paralelos. A diferença de Lucas está em que é um fariseu que convida Jesus. Nos outros isso não é dito. Mas em Lucas vê-se o contexto de refeição para a qual Jesus é convidado.
Quanto à questão do estar à mesa, Marcos e Mateus falam disso sem qualquer interesse directo. Mas em Lucas interessa referir a questão da pureza/impureza.
Mt 12,9-13/Mc 3,1-6/Lc 14,1-5
Jesus teoriza como quer que façamos o banquete. A mesa é lugar de conversão, de revelação, de transformação.
Lucas dá valor à casa e à refeição. Porquê? Porque bebe do género do simpósio grego… mas também porque tem um cariz narativo. Aquele que está à mesa conta-nos uma história. Um livro escrito à mesa é escrito em intimidade. O alimento tem um papel de primeiro plano na História da Salvação. O primeiro mandamento de Deus na História da Salvação é não comer do fruto proibido. Em Ex 24,9-11: 9Moisés subiu com Aarão, Nadab e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. 10Contemplaram o Deus de Israel. Sob os seus pés, havia como que um pavimento de safiras, tão puro como o próprio céu. 11E Ele não estendeu a mão contra estes eleitos dos filhos de Israel, os quais contemplaram a Deus e depois comeram e beberam. A refeição sela a Aliança. A manjedoura, a casa de Zaqueu, a acusação de Jesus de comer com publicanos e fariseus, tudo isso é contemplar a Deus, comer e beber. Is 25,6/Is 55,1. A referência escatológica tem em conta o Banquete.
Um campo semântico fundamnetal em Lucas é referente à comensalidade. Em Lucas há uma teologia da refeição.
Penetrar na casa põe em risco Jesus.
Lucas está divido em duas grandes unidades:
1. Evangelho da Infância
2. O Evangelho
A articulação entre ambas as partes corre o risco de nos ficarmos apenas numa delas sem atender à outra. Ambas as partes têm uma natureza diferente. Do ponto de vista da Cristologia do entendimento de Jesus, não temos no Evangelho da infância um tom, uma convicção que não encontramos ao longo do Evangelho. Surgem alguns títulos. A descrição das figuras, tudo, tende para uma glorificação de Jesus. Jesus é apresentado numa teologia maximalista. Diz-se o máximo do que se pode dizer. O Evangelho da Infância é cosntruído de forma maximalista. E o Evangelho é escrito de forma minimalista. No Evangelho da Infância h´auma certeza. No Evangelho há uma incerteza que nos faz trilhar o cmainho das perguntas: Quem é este? Quem Lhe deu esta autoridade? As respostas têm de partir do leitor. O texto de Lucas pretende fazer o leitor procurar, caminhar, questionar, descobrir.
A função do Evangelho da Infância é ser um mapa, um guia proléptico dado ao leitor. Antecipa os grandes temas e definições pascais de Jesus. Há títulos neste Evangelho que só à luz da Páscoa se poderão perceber. Ler o Evangelho com os olhos de Maria e de João Baptista. Só se entende o Evangelho depois do anúncio do Evangelho da Infância. O relato a Maria desempenha uma função quase especular.
Quando somos colocados pernate um texto, o que fazer dele? Ouvir a sua voz. Como se faz? Olhar as palavras que se repetem. Esta é uma teologia visual, que se pode ver. Lucas é o Evangelho da Salvação. O grande tema de Lucas é a Salvação (“Ele é o Salvador”).
O Evangelho de Lucas é dominado em parte pela identidade de Jesus. O Capítulo 7 é essencial e pincipal no Evangelho. A confissão de fé do cap. 7 vai permitir a mesma confissão de fé no cap. 9. No cap. 7 usa-se pela primeira vez, aplicado ao ministério de Jesus, o verbo salvar. Neste cap. temos temos principais:
· Autoridade
· Profecia
· Visita de Deus
AUTORIDADE
Estes temas são encenados neste cap. 7 e serão fundamentais para a caracterização de Jesus. Neste capítulo Jesus cura o servo do centurião e o filho da vúva de Naim. Estas curas são uma progressiva afirmação da sua autoridade. Olhando para o conjunto deste Evangelho, no tópica da autoridade, podemos ver que Jesus consegue vencer todas as debilidades. Quando parece que não há cura nem força, esse mal é debelado (Lc 5,17; Lc 6,19;Lc 8,46). O poder de Jesus dá-lhe autoridade.
Jesus emerge como alguém que está fora dos limites do seu tempo. Fala como quem tem autoridade. No Judaísmo desta época a questão da autoridade é fundamental. Não se compreende Jesus sem compreender a crise da autoridade que se havia estabelecido à época. A autoridade via-se perdida perante a pressão cultural greco-romana. Sem uma autoridade política, Israel estava dividida em várias correntes. Quem deu esta autoridade? Os sinais, milagres, exorcismos, são importantes porque referem o espaço de liberdade. A autoridade que tem não é tutelada, mas é uma autoridade que vem dele próprio. O Evangelho retrata-nos alguém que tem uma pessoalíssima e ilimitada autoridade e liberdade. Jesus afirma-o, mas os outros não o reconhecem.
O centurião não diz de onde vem o poder de Jesus, mas Jesus explicará essa autoridade. Jesus fica admirado com esta palavra do centurião (Lc 2,33; Lc 4,32; Lc 7,9). A cura do servo do centurião é importante no relato, mas não é esse o tópico dessa passagem do capítulo 7. O interesse narrativo é a autoridade que se manifesta.
Três diferenças entre Jesus e as práticas taumatúrgicas antigas:
1. Jesus não realiza as acções taumatúrgicas como os mágicos gregos;
2. A cura acontece normalmente pelo recurso simples à palavra de Jesus;
3. O crente identifica o poder taumatúrgico de Jesus e Jesus.
O programa messiânico de Jesus não se limita a curar, pois é um programa mais vasto. O leitor deve perceber que nestas curas singulares de Jesus, podemos entrever uma mudança qualitativa da realidade. Quando Jesus põe a andar um coxo, temos uma afirmação qualitativa. Sinaliza-se a vitória de Jesus, das suas forças. O importante para Jesus não era curar todos. Os taumaturgos curam muito mais. A cura em si não é a finalidade de Jesus, pois o sinal da cura é escatológico. Mostra-se que o horizonte escatológico não é escatológico, mas que já está presente me Jesus de Nazaré. As curas atestam uma renovação messiânica e escatológica em grande escala, pois são promessa e garantia de uma mudança de situação. A mensagem principal é que as curas, como sinais, têm de ser complementadas com outros títulos. O Evangelho não se pode reduzir às curas. O importante é o perdão dos pecados. As curas têm somente uma função instrumental.
PROFECIA
Ninguém pede nada a Jesus. O rapaz já está morto. Não há nada a dizer. É Jesus que toma a iniciativa. A compaixão de Jesus não é simples, mas muito intensa. Este encontro com a viúva temos uma referência indirecta ao Benedcitus que fala do coração misericordioso de Jesus, mas é mais do que isso, pois a palavra original quer dizer muito mais.
Temos a dúvida acerca da condição profética de Jesus. Noutras passagens temos a afirmação de que Jesus é profeta, mas estamos sempre entre a duvida e a afirmação.
O Evangelho é um palimpsesto pois tem diversas camadas de leitura. Enquanto que os autores gregos e romanos citavam autores antigos directanmente, Lucas não o faz, não identifica o que cita. Nós leitores temos a obrigação de identificar tudo o que nos diz.
· A cura do servo do cneturião pode ser aproximada à cura do sírio Naaman.
· A mulher pecadora que vem, chora, beije e é perdoado pode ser aproximada da mulher de Reis que é pecadora e a sunamita.
· O filho da viúva de Naim pode ser posto em paralelo a 1 Re 17,24 – a viúva de Sarepta.
Entre Lucas 7 e 1 Re 17 temos quatro traços similares:
· Porta de Sarepta
· Ambas as mulheres são viúvas
· O profeta cura o filho e restitui à mãe
· Reacção: “Um grande profeta…”/”Agora reconheço que és um homem de Deus”.
Em Lucas temos o reconhecimento por parte de todos, e em 1 Re temos apenas da parte da mulher.
Em Lc 4, 28 é-nos dito que na sinagoga todos ficaram cheios de furor. Esta cena de Jesus na sinagoga é antecipada. Em Mateus e Marcos tem outra colocação. Mt 3, 53-58; Mc 6,1-6. Lucas antecipa esta cena para ser a primeira acção pública de Jesus. Lucas coloca propositadamente no inicio do Evangelho para dizer que esta cena é um dos pilares do Evangelho.
Jesus cita Isaías, Elias e Eliseu. Define-se implicita e nitidamente Profeta. A reacção negativa do auditório torna-se factor da confirmação de Jesus. A sua negação afirma que é Profeta, pois afinal todos os profetas não são bem recebidos na sua terra. O evangelho recicla tudo. O que tem um snetido negativo ganha um sentido positivo.
Jesus é o Grande Profeta, o Elia que era para vir, o Profeta esperado do tempo escatológico. Isso torna-se claro no capítulo 8, na pergunta que João Baptista manda fazer a Jesus.
João Baptista pergunta se Jesus é ou não o Soberano do fim dos tempos. É ou não o Rei davídico? É, para o Baptista, fundamental colocar esta questão acerca de quem é Jesus, reconhecendo nele a possibilidade de ser realmente o Juiz.
Jesus cura imediatamente depois da pergunta de João Baptista. Jesus cumpre integralmente as expecattivas messiânicas definidas pelo programa profético definido por Isaías. Jesus permite-nos em analepse revisitar todo o passado. Fazem-se aqui presentes algumas passagens de Isaias. As curas e milagres estão ao serviço do Evagelho.
Feliz aquele que não se escandalizar por causa de Jesus. Quer dizer que a experiencia de salvação, de participação no Reino de Deus, passa pela relação com Jesus. Há uma centralidade cristológica na forma como a bem-aventurança está construída. A bem-aventurança é consequência da nossa relação com Jesus. Esta referência à primeira pessoa apontra para uma autoridade (Eu sou Aquele que sou), numa perspectiva teofânica. Jesus é manifestação de Deus.
Todas as personagens (os emissários) entram em cena e têm espaço mediático na narrativa desde que venham ao encontro com Jesus. Quando o deixam, saem da narrativa. Há aqui um fluxo densamente cristológico. Lucas não se afasta de Jesus.
Sincrese – comparação de personagens depois de caracterizadas. Jesus é comparado com João Baptista. A primeira Anunciação em Lucas dá-se a Zacarias, e depois a Maria. Nasce João Baptista, Maria visita Isabel e ajud ano parto e deposi nasce Jesus. Temos o Benedictus e depois o Magnificat. Temos os baptismo do Baptista e depois Jesus que baptiza pelo Espírito. Esta construção em sincrese serve para dizer que Jesus é superior a João Baptista. Mas é construído em paralelo. Mateus é construído em sincrese, José e Herodes. A sincrese é uma técnic amuito importante, comparando duas personagens para mostar a originalidade de Jesus. Mas também aparece Jesus em sincrese com outrso dois profetas. Lucas é o único que diz que Moisés e Elias estavam a falar com Jesus sobre o Êxodo. Elias é um profeta escatológico. Jesus é um Profeta.
Mas Jesus, como Profeta, faz entrar em crise a categoria profeta. Ele é mais do que um profeta.
Jesus entra em casa sem ser recebido com a hospitalidade comum. O fariseu não fez de Jesus o seu centro, mas a mulher sim. Jesus atira isso à cara. A identidade de Jesus e o seu comportamento coloca em crise a categoria profética. Há um novo estilo de presença. Qual é? A abertura de Jesus aos pecadores. Os pecadores eram um grupo social, e não era uma dimensão moral. Um cobrador de impostos, as prostitutas, etc… Os pecadores começam a procurar Jesus, que manifesta para com estes uma proximidade e grande interesse. Não temos da parte dos discípulos confissões tão intensas como as dos pecadores. Esta mulher confessa-se com lágrimas, beijos, com humilhação e humildade. O perfume conta uma história, é biográfico, pois o nosso cheiro conta a nossa história. Ele propaga-se, para lá dos actos que se inserem num determinado momento. A verdadeira compreensão de Jesus é aquela que é feita pelos pecadores. É na medida em que os discípulos se identificam com os pecadores, que eles tocam o ministério de Jesus, o segredo de Jesus, que já não é a categoria de profeta, mas a da visita de Deus.
VISITA DE DEUS
O verbo chegar a aparece com uma significação importante para compreender os movimentos de Jesus. Deus visita o seu Povo. É Jesus que entra na s casa, que chegas às cidades, dando testemunho da visita de Deus. É mais do que um profeta, pois é Deus quem visita o seu Povo. Lucas descreve o ministério do Messias. O verbo visitar[D1] é precisamente esta afirmação de Lucas.
O tema da visitação é visto em conjunto com Israel. O drama da recusa. A vinda de Jesus é marcada pela recusa. Por um lado Deus visitou o Seu Povo, mas não é reconhecido. É também reconhecido, mas recusado.
As personagens: coxo, extropiado, endemoninhado, etc, desaparecem depois nos Actos dos Apóstolos. Aí temos outras personagens de outro teatro… porquê? Porquê a diferença? Alguns vêm aqui a retórica da persuasão. O ministério de Jesus na Galileia está repleto de personagens-tipo ligados à figura do “benfeitor divino” que é aquele que testemunha a misericórdia de Deus para com o Seu Povo. A finalidade do Evangelho é representar Jesus somente como benfeitor divino? Não. Este retrato pretende representar uma fase de Jesus, do Evangelho. Depois, nos Actos dos Apóstolos estas personagens já não aparecem, nem o que Isaías mandava na proclamação messiânica. Agora interessa ir e perdoar os pecados. Então porque temos no Evangelho a figura em Jesus do benfeitor divino? Porque a retórica de persuasão pretende desbloquear os corações, numa função propedêutica, pedagógica, para o grande anúncio de que Deus visita o Seu Povo em Jesus, que é o Visitador escatológico da História porque é Aquele que tem poder de perdoar os pecados (“Quem é este que até perdoa os pecados?). Até aqui há uma preocupação em garantir a abertura dos corações. A teologia de Lucas é uma teologia da salvação. Jesus é o Salvador.
[D1]Deus visitou o seu Povo. Realiza-se o que foi referido no Benedictus. Aparece em Lc 7, 16, mas já havia sido referida antes naquela.